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Cada um por si, quase ninguém por nós   (Ana Carla Abrão – Agência Estado), 05-06-2018

terça-feira, junho 5th, 2018

A reconstrução do Brasil passa pela nossa capacidade de entender que o público que se tornou privado está roubando a todos nós um pouco a cada dia. O Brasil está tão viciado em subsídios, em benesses e em privilégios que chega a ignorar que essa conta, ao final, recai sobre a sociedade por meio de mais impostos ou maior desigualdade.

O Brasil está tão tomado e o Estado tão capturado que não mais se distingue o público do privado. É o patrimonialismo que volta e meia dizemos atacar, mas que na prática continua aí, teimando em se perpetuar. São sempre os mesmos, organizados em grupos de pressão, dentro e fora do setor público, que se beneficiam de recursos públicos, à custa de um País que já exauriu sua capacidade de tributar. São grupos que tomaram de assalto o Estado, as políticas públicas, as decisões legislativas e as ações de governo.

Exemplos não faltam, nesses tempos difíceis que vivemos. Ministérios se consolidaram como latifúndios partidários – e por vezes até familiares. Esta semana, o presidente Temer disse que considerava tirar o Ministério de Trabalho do PTB. Infelizmente, não é retórica. Assim como esse, vários são os ministérios e órgãos cujas ações financiadas com dinheiro público têm como única motivação o atendimento de interesses políticos específicos, na melhor das hipóteses. As ações públicas se tornaram moeda com a qual se compra apoio político aqui, um palanque ali ou um voto acolá. Como coordenar ações de governo nesse varejo de interesses? Afinal, se o loteamento leva ao atendimento de interesses específicos, não necessariamente convergentes entre si, onde estará o benefício público?

No Congresso, projetos de leis ficam à mercê de grupos de pressão. Modernizações necessárias e urgentes do nosso arcabouço legal e correções dos exageros e erros de políticas equivocadas esbarram nos lobbies de empresas privadas, organizações cartoriais ou sindicatos de servidores públicos barulhentos e influentes. Boa parte dos nossos parlamentares teve suas campanhas financiadas por esses grupos e, ao final do dia, acabam por servir aos seus financiadores e não aos seus eleitores. Afinal, quem ganha com a dificuldade de aprovação de leis importantes como a do cadastro positivo ou da duplicata eletrônica? E pelo não adiamento do aumento dos servidores públicos em pleno descalabro fiscal? A resposta, certamente, não é o cidadão.
No Judiciário, aquele poder que parece estacionado em Lisboa, o teto salarial e os auxílios-moradia deixaram de ser discutidos em uma ação de ninguém sabe, ninguém viu. Além disso, os supersalários, aqueles que o Conselho Nacional de Justiça disse investigar, estão guardados a sete chaves pois são legais e por isso, inquestionáveis. Esse mesmo judiciário se arma contra qualquer iniciativa de modernização que ameace as receitas dos cartórios, que são também suas receitas, e entrega uma justiça lenta, com tribunais abarrotados de processos e uma avaliação da população de que temos um dos piores – e mais caros – judiciários do mundo. Insisto, onde está o interesse público?
A reconstrução do Brasil passa pela nossa capacidade de entender que o público que se tornou privado está roubando a todos nós um pouco a cada dia. Nos Ministérios, nas empresas públicas, nas leis, na aplicação das leis e nas ações de governo. Cada subsídio, cada desoneração, cada política específica, ao beneficiar alguns, tira de muitos. Nos poucos casos em que há benefício coletivo indireto, custos e resultados têm de ser medidos, acompanhados, orçados e divulgados.
Precisamos fazer a pergunta certa e cobrar de quem detém a legitimidade do voto que reflita sobre como o interesse público se coloca em cada uma das suas ações. E nenhuma ação se justifica se não tiver nele o principal benefício. Hoje são poucos – mas os há e são louváveis e merecem o nosso reconhecimento e respeito – aqueles no governo que olham por todos nós. São bastiões que nadam em águas cada vez mais turvas, mas que mantém o rumo. São esses que agem em favor dos que padecem num Brasil pobre, deseducado, desmotivado e sem perspectivas. Quiçá 2019 nos traga esses e muitos outros assim, que trabalharão por nós e não por si. 

Estatística sem medo: Inferência!

sexta-feira, março 17th, 2017

Uma das questões que assusta boa parte dos alunos no estudo da Estatística é a parte inferencial. Normalmente, enquanto o aluno está aprendendo estatística descritiva a coisa vai bem. Na Estatística Descritiva, procura-se reunir informações sobre determinado fenômeno, evento, processo ou qualquer outra coisa que seja objeto de estudo e que se procura descrever de forma resumida por alguns poucos números, tabelas ou gráficos.

Quando o aluno sai da média para o desvio-padrão o medo já começa a pipocar! Certo? É preciso ter calma para o medo não paralisar e impedir um avanço natural! Na verdade são conceitos muito simples. Há coisa muito mais difícil a aprender, por exemplo, na nossa língua pátria.

Por falar em média, vamos lá. A média é um número com o qual tentamos representar um conjunto de observações de forma simples. Ela representa uma espécie de centro de gravidade ou de massa, quando se faz uma analogia dos dados com uma peça física, por exemplo, um disco. Então, se fôssemos representar um disco LP (Long Play, esse é antigo) ou um CD (Compact Disc), a média ficaria ali naquele furinho central. O LP costumava ser grande, muito maior do que um compact disc de hoje.

Agora, observe o seguinte, quando tentamos representar uma coleção de observações pela média, perdemos muita informação. Na analogia com o LP, perdemos muito mais do que no CD. Há muitos pontos pretos muito distantes do centro tanto no caso do LP quanto do CD, mas isso é mais severo no caso do LP.  Veja as figuras.

 

Então, se alinhássemos os dois furinhos centrais dos discos, as médias seriam as mesmas. Mas haveria muito mais dispersão nos pontos do LP do que do CD. O que é dispersão? É um conceito que traduz a idéia de variação das diferentes observações em relação ao ponto central.  De novo, há muitos pontos bem mais distantes do centro no caso do LP do que no caso do CD. Costumeiramente utilizam o desvio-padrão ou a variância para medir esta tal dispersão. Nós não vamos aqui apresentar as fórmulas e os cálculos, queremos transmitir apenas o conceito, a noção. Depois você olha num livro de estatística as fórmulas. Resumidamente, a dupla (média, desvio-padrão) passa melhor informação do que somente a média. Concorda?

E a tal Inferência Estatística?

Esta sim mete medo! Né? Vamos tentar desmistificá-la, ajudando-o a entender o seu teorema mais fundamental, o ponto de partida de tudo, o chamado Teorema do Limite Central. Porque se você entender isso você se sentirá mais confortável para enfrentar o resto!

A inferência não tenta descrever nada,  outrossim tenta prever, estimar, alguma coisa, por exemplo a média ou a proporção de determinada variável em uma população. Penso que o exemplo mais conhecido de todos é a estimativa do percentual de votos que um candidato terá numa eleição. Ou seja, a partir de uma amostra obtida por pesquisa com pessoas na rua (ou por telefone), estima-se qual o percentual de votos que o candidato alcançará na eleição.

Outros exemplos são a estimativa de proporções ou taxas de defeitos num determinado processo produtivo e a estimativa da altura média dos soldados de um batalhão. Toma-se uma pequena amostra (porque os objetos podem ser caros e serão destruídos no processo de amostragem) para se falar (inferir) sobre o todo. A partir da análise da proporção de defeitos da amostra e a aplicação de algumas fórmulas chega-se a estimativa da proporção de defeitos em toda a população. No caso da estimativa da altura média, em vez de se realizar um censo com todos os cinco mil soldados de uma unidade, pode-se tomar uma pequena amostra deles para estimar a altura média de todo o conjunto.

As amostras citadas aqui são aleatórias! O que é isso? São amostras onde os elementos são sorteados, são gerados ao acaso e cada um deles tem a mesma chance de ser sorteado. Isso é muito importante. A inferência estatística está assentada no cálculo de probabilidades (assunto da matemática!). Então, é muito importante que as amostras sejam do tipo aleatórias de forma a permitir realizar a inferência medindo nela um certo grau de erro. Mais à frente isso ficará mais claro.

E o tal Teorema do Limite Central? Que bicho é esse?

Esse teorema garante que as médias amostrais tem distribuição normal!

Meu Deus, começou! O aluno já deve estar pensando que passamos para o terreno de Marte! (risos).

Não se preocupe com a fórmula horrorosa da Curva Normal ou Curva de Gauss. Apenas pense de forma prática: alguém que gosta muito de matemática (provavelmente, muito mais do que você que está lendo isso!) calculou tudo para você. É só aproveitar. Ele, sabendo que muitos fenômenos da natureza, poderiam ser modelados/explicados por esta curva normal, deduziu a equação desta curva e deixou tudo prontinho para você.

Veja o jeitão da curva normal

 

Quando você diz que uma determinada variável tem uma distribuição normal ou um comportamento normal, você está dizendo que se você plotar num gráfico os diferentes valores que você coletou (aleatoriamente) desta variável ela terá um jeitão conforme a figura acima. Supondo que você fosse retirando alturas aleatórias de um livro que contém o cadastro detalhado de cada soldado de um batalhão. Há uma grande chance de a maior parte das alturas ficarem na parte central da curva. Mas é possível que apareçam algumas poucas alturas de soldados muito baixos e de soldados muito altos. Eles ficarão nos extremos da tal curva normal. Então, na horizontal do gráfico acima se mede a distância até o centro e as alturas ou áreas entre uma altura e outra a probabilidade de se ter alturas no intervalo. Na figura acima o ponto zero corresponde ao valor central ou altura média. Note que há 68,26% de alturas situadas entre o ponto “-1” e o ponto “1”. O que é isso? Esse 1 e esse -1 representam um desvio-padrão à direita da média e um desvio-padrão à esquerda da média. Vamos supor que a média deste batalhão fosse 1,60 m e o desvio-padrão 0,10 m. Isso quer dizer que 68% das observações (dos soldados) tem altura entre 1,50 e 1,70 m.

Então, note que para caracterizar uma distribuição normal você precisa de dois parâmetros: média e desvio-padrão. De posse desses dois parâmetros você tem uma curva normal perfeitamente definida.

E o tal Teorema do Limite Central? Então, tomando como exemplo a questão das alturas dos soldados do batalhão, este teorema garante que se você tivesse muita paciência e fosse retirando amostras aleatórias de, digamos, 30 soldados e anotando a média de cada amostra, esta coleção de médias amostrais teria uma distribuição normal com parâmetros conhecidos. A média desta nova distribuição seria igual a média da população original (e desconhecida, porque você não fez o censo!) e o desvio-padrão seria menor, dado pela fórmula dp da população/raiz (n), onde n é o tamanho da amostra.

Agora foi para fundir a cuca, né? Calma!

Mas que história é essa, eu quero estimar a altura média de soldados do batalhão e você fica pedindo para eu retirar muitas amostras aleatórias de tamano 30?! Não, só estou colocando esta questão por didatismo. Na prática, conforme você verá ao final, você tomará uma única amostra de 30 soldados para estimar a altura média da população.

Voltemos à questão da tal Distribuição Amostral de Médias. Sim, ela é uma curva normal, com centro na média da população e desvio-padrão muito menor do que o da população. E daí? Eu não tenho nem a média e muito menos o desvio-padrão da população. Certo, mas diz a estatística que podemos utilizar a média da amostra e o desvio-padrão da amostra como estimativa para os parâmetros da população.

Então, vamos supor que a média da amostra foi 1,62 m e que  o desvio-padrão foi de 0,12 m. Ora, com base no Teorema do Limite Central, a média da distribuição amostral de médias (dam) é igual a 1,62 e o desvio-padrão da tal dam é 0,12/raiz(30) que produz o valor 0,02 m ou dois centímetros.

Com base nesses dois parâmetros podemos realizar cálculos de probabilidade pois uma curva normal é propícia a isso. E tudo já se encontra tabelado ou programado em máquinas de calcular ou computadores.

Então, se fôssemos retirando amostras de 30 soldados seguidamente, tudo de forma aleatória, haveria uma chance muito grande, cerca de 68,26% de que as médias dessas amostras ficassem entre 1,60 (média menos um desvio-padrão) e 1,64 m (média mais um desvio-padrão).  Indo para o extremo direito da curva, distante três desvio-padrões do centro, teríamos a altura 1,60 + 3 x 0,02 = 1,66. Isto significa que a chance de encontramos médias de amostras (de trinta soldados) superior a 1,66 é de apenas 0,13%. Olhe no extremo direito da figura correspondente à curva normal.

Bem, finalizando, vamos fazer a nossa estimativa intervalar para a média da altura dos soldados do batalhão com base na tal amostra de média 1,62 e desvio-padrão igual a 0,12. Ora, a dam tem por parâmetros, média igual a 1,62 e dp igual a 0,02. Vamos estimar a nossa altura média no intervalo entre – 3 dp e + 3dp, conforme ilustrado na figura da curva normal. Isto significa que vamos deixar 0,13% de área à direita do ponto extremo direito e o mesmo no extremo esquerdo. Então, dizemos que fazemos uma estimativa com 99,74% de confiança estatística. Ou, com 0,26% de chance de estarmos enganados, ou de significância estatística.

Então, a nossa estimativa intervalar com 99,74% de confiança é:

Altura Média no intervalo [1,56  ,    1,68].

A estatística é humilde! Ela não consegue garantir que a altura média da população é exatamente 1,62 m. Ela apenas informa que há uma grande chance de esta média estar entre 1,56  e 1,68 m.

 

 

Folha de São Paulo entrevista o Presidente do IBGE, Paulo Rabello de Castro, 05/12/2016

segunda-feira, dezembro 5th, 2016

Risco de economia permanecer estagnada é visível a olho nu’, diz presidente do IBGE

Divulgação
O presidente do IBGE, Paulo Rabello de Castro, em seu escritório, no Rio
O presidente do IBGE, Paulo Rabello de Castro, em seu escritório, no Rio

MARIANA CARNEIRO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Os números mais recentes da economia confirmam que o país continua em profunda recessão. Para o presidente do IBGE, o economista Paulo Rabello de Castro, 67, crescer 1% no ano que vem ainda será pouco.

Estatisticamente, o número voltará ao terreno positivo, mas o estrago em termos de emprego e renda ainda terá uma resposta fraca.

Castro concedeu esta entrevista antes da divulgação do PIB, na quarta (30). Segundo ele, a análise se baseia em dificuldades observáveis a olho nu.

O quiproquó político só aumenta a tensão, diz o aliado de Michel Temer, que chegou à presidência do IBGE com a ascensão do atual mandatário.”Nós não conseguimos fazer o time jogar bem”, disse ele, sobre as forças produtivas do país. “As empresas entram mal em campo, as pessoas são desempregadas. Todos ficam desesperançados, a produtividade geral cai e o governo gasta demais.”

“A pior coisa que poderíamos enfrentar hoje é um novo estado de desconfiança em relação à figura do presidente da República.”

Folha – Em que estágio estamos nesta recessão?

Paulo Rabello de Castro – Ainda estamos regredindo. E, se olharmos à frente, vemos projeções menos favoráveis do que há seis meses. À medida que os meses de 2016 foram avançando, foi ficando claro que a reversão do processo recessivo será mais lenta e mais penosa, do ponto de vista do que mais nos interessa, que é a recuperação do emprego. Portanto, o quadro não é bom.

A recessão vai se estender até 2017?

Essa recessão é um bicho diferente, que deveria suscitar um debate especial. Porque algo de muito ruim pode estar acontecendo na configuração das forças produtivas, uma disfuncionalidade entre os fatores de produção.

Nós não conseguimos fazer esse time jogar bem. Veja a seleção brasileira, uma rearticulação na cabeça do técnico fez emergir com os mesmos jogadores um outro time. Esse é o milagre que eu esperaria do governo. Não podemos trocar os jogadores. Algo há de errado na disposição desse time. As empresas entram mal em campo, as pessoas são desempregadas. Todos ficam desesperançados, a produtividade geral cai e o governo gasta demais, cobrando de todos para cobrir a gastança.

Enquanto isso, outro grupo de teorizadores diz que, para que o mundo não caia sobre nossas cabeças, temos que praticar a taxa de juros mais elevada do mundo, pois esse é o remédio universal. Para mim, isso e tratamento numa clínica vodu são o mesmo.

A culpa é dos juros do Banco Central?

É uma abordagem estrutural, que existe praticamente desde a estabilização [em 1994]. A taxa de juros é um remédio muito sério, que deveria ser usado por um período intensivo e muito curto. Não por décadas seguidas. O resultado é que, de 1999 até hoje, a dívida pública está quase duas vezes superior ao que poderia estar se estivéssemos praticando uma taxa de juros neutra.

Isso sustenta um rentismo financeiro e faz com que a sociedade precise ser reeducada para o compromisso de trabalhar. Trabalho no Brasil é opção de último caso. As filas preferenciais são as do subsídio e as do privilégio.

Há risco de sairmos da recessão e ficarmos presos a uma estagnação?

Esse risco é visível a olho nu. O desafio é enorme. São dificuldades internacionais e domésticas. Portanto, minha torcida pela saída da recessão fica só no plano estatístico. Porque, se crescermos 1% em 2017, provavelmente teremos um ou dois trimestres positivos no fim do ano. Isso ensejará a saída estatística da recessão, mas não agradará, porque a resposta em termos de emprego e renda vai ser muito fraca.

Crescer 1% em 2017 é claramente insuficiente. Ficará para 2018 o hercúleo trabalho de, aí sim, demonstrar números mais parecidos com uma recuperação.

É pior que a década 1980?

Sem dúvida, porque ela é uma recessão autoinflingida. Na década de 1980, não tínhamos apenas um incômodo internacional. Hoje o vento não está mais hiperfavorável, mas não quer dizer que o cenário seja totalmente antagônico. Em 1980 era. Estávamos afundados em uma restrição absoluta, não tínhamos dólares e tínhamos que importar petróleo. Hoje estamos em uma crise de credibilidade em razão dos nossos desajustes.

Então não é certo que haverá uma recuperação cíclica?

Não, porque por enquanto nós ainda estamos encomendando a corda para nos enforcar. E uma parte do quiproquó político ajuda nisso.

A crise política continuará afetando a economia?

Muitíssimo. A pior coisa que poderíamos enfrentar hoje é um novo estado de desconfiança em relação à figura do presidente da República. Já foi muito ruim e triste que a presidente Dilma Rousseff tenha passado pelo que passou. Todos que temos consciência cívica lamentamos profundamente o limite a que seu governo chegou, de não conseguir nem organizar politicamente o país. De alguma forma, a organização do poder foi maltratada. Também hoje nós deveríamos evitar ao máximo contaminar a autoridade da Presidência com uma nova pauta de demolição nacional.

Por quê? Em prol da economia?

Em prol da retomada de uma ética do trabalho. Mesmo que a gente queira voltar a trabalhar, é preciso que nos organizemos. Chegará o momento, e deveria ser em 2017, em que teremos de começar a separar o pecado do pecador.

Como assim?

À medida que a lista de pecadores só faz aumentar, com as denúncias e as homologações [da Lava Jato], as repercussões que isso está tendo sobre as maiores empresas do país é absolutamente trágica. Precisamos articular meios que transcendam os acordos de leniência, de forma que as empresas possam ir pagando pelos seus pecados, deixando o rastro do castigo e das penas para as pessoas físicas, e liberá-las para pensar em novos investimentos.

Se o presidente for afastado, mergulharemos em uma nova fase de crise econômica?

Não precisamos desse cenário. Como colaborador do presidente, torço para que tudo se esclareça favoravelmente. Se nós temos senso no Brasil, que nós nos agarremos ao presidente e dele exijamos a ampliação da pauta de refundação da república. Não temos tempo a perder.

Em meio a essas dificuldades, é possível almejar uma reforma da Previdência?

Vai ser muito difícil passar qualquer coisa que não seja o reajuste das idades. E se for [aprovado]. Vamos ampliar a idade de acesso ao benefício, ajustar a equação previdenciária, mas isso não é repactuar a Previdência. O que seria o certo a fazer.

Mas está demorando demais. Anunciar que uma tal reforma vai mexer com os direitos e não esclarecer que os “aposentáveis” não sofrem perdas em decorrência disso é grave e traz sérias consequências para nós.

No IBGE, vamos perder mais de 300 funcionários no próximo ano, devido à aposentadoria. Eles estão virando 400 em razão do lero-lero de uma Previdência que vai machucar o interesse dos aposentados.

É uma dúvida que se instalou no coração das pessoas, porque ninguém sabe qual o teor da reforma. Até a minha secretária anunciou que vai se aposentar.

Quando o sr. fala em reorganizar a economia para sair da recessão, o que seria?

A simplificação tributária poderia ajudar a desatar o nó da estagnação. O outro ponto é a gestão pública, através da criação do conselho de gestão fiscal [foi aprovado no Senado, mas tramita na Câmara]. Ele funcionaria como um complemento da PEC 241, para fazer valer a regra fiscal.

Como assim?

No dia em que se atribuir o teto do gasto, toda a administração pública vai competir por gastar mais. Quais serão os critérios que vão balizar quem deve estar na frente da fila? Esse conselho estipularia os critérios de avaliação.

O Ministério do Planejamento está empenhado neste momento em construir critérios de eficiência e aplicá-los sobre determinados programas. É um excelente começo.

Estamos fazendo isso também aqui no IBGE: elaborando uma avaliação do valor social dos trabalhos do instituto.

Mudaria a forma como o IBGE recebe recursos do governo?

Ajudaria o IBGE a fazer uma reflexão do que realmente tem mais impacto para a sociedade. Muitas das pesquisas são ancoradas apenas na tradição de fazer porque se fazia no passado.

Vai filtrar as pesquisas?

Sim, de acordo com alguns critérios. Às vezes a relevância social não se traduz por critérios monetários. Como uma pesquisa sobre o estado das prisões, que nós queremos retomar. Uma de nossas prioridades será o tema da segurança pública.

O IBGE pode fazer uma grande contribuição nas informações dessa área, que até hoje incrivelmente não são padronizadas. É possível morrer de homicídio de forma diferente em São Paulo ou na Bahia.

Como quantificar o valor das pesquisas?

Estamos tentando medir de acordo com a repercussão que tem essa estatística no planejamento das políticas públicas e das atividades empresariais. Diariamente, cerca de 400 consultas são feitas ao site do IBGE para confirmar coordenadas geográficas. Quem usa isso? Todo o mundo que está construindo. Eles pagariam por essa informação.

O IBGE vai vender informação?

Qualquer produto do IBGE, por definição, é de livre acesso. O que é passível de cobrança é a reelaboração da estatística de forma a dar respostas específicas e intensivas para determinados usuários. Por exemplo, há dados sobre as cidades e um usuário gostaria de cruzar diferentes informações numa matriz. O IBGE não tem isso hoje. Talvez seja possível elaborar, mas isso custaria porque eu teria alguns técnicos que iriam parar para fazer isso.

Eventualmente é uma forma de desonerar a sociedade de pagar todo o custo do livre acesso e estabelecer uma discriminação entre usuários intensivos e eventuais.

Haveria pessoal no IBGE para isso?

Seria possível imaginar uma gratificação adicional para os funcionários. E, a partir desse adicional, poderíamos avançar em alta tecnologia, big data etc. Não podemos ficar dependentes de pedir 100% dos recursos para a “viúva”.

Quando o sr. assumiu o IBGE, funcionários alegaram conflito de interesses. Como resolveu?

Eu não posso resolver um conflito que não existe. Qualquer cidadão que queira contribuir para o serviço público tem que deixar a gestão direta de suas atividades privadas. Eu, como tinha várias “empresocas” constituídas, tive de me desvencilhar e entregar a administração.

E o acesso a dados que poderia lhe dar informação privilegiada?

Como consultor, nunca tive a curiosidade de saber este ou aquele dado de inflação mais recente. A menos que você esteja realizando operações financeiras… Mas eu nunca tive bancos como clientes. Assim que cheguei, me inclui na lista de restrições a todos que estão fora do IBGE [de saber dos dados duas horas antes da divulgação].

Conflito de Interesses pode ter dado causa à queda do avião com a equipe da Chapecoense!

quinta-feira, dezembro 1st, 2016

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Ainda é cedo para se chegar a uma conclusão, mas já são muitas as evidências de que a causa do acidente teria sido falta de combustível. Afinal de contas não havia combustível algum junto aos destroços do terrível acidente.

O Piloto também era sócio proprietário da companhia Lamia Boliviana (já que existia uma Lamia Venezuelana). Ele vivia dois papéis, o de empresário que tem como foco o lucro e o de piloto responsável pela segurança de todos os passageiros, tripulação e a sua própria.

Então, o lado do lucro pode ter atrapalhado a sua conduta como piloto desde o plano de vôo até os momentos finais em que comunicava com a torre de controle do aeroporto em que pretendia pousar, lá na Colômbia.

O avião tinha pouca ou estreita autonomia para o plano de voo que foi feito, havendo pouca margem de manobra para tempo extra de voo, como vem sendo constatado no caso em questão.

Há indícios de que o piloto não comunicou com firmeza e com agilidade a sua situação crítica para a torre de controle. Talvez tivesse receio de, ao comunicar a emergência,  ser interpelado pelas autoridades sobre as causas da situação de emergência, que acabariam por expor a sua companhia a multas ou punições.

Uma tragédia para não ser esquecida, de maneira a evitar novos casos da espécie.

 

Um mea-culpa de um Jornalista Português sobre a eleição de TRUMP

quarta-feira, novembro 9th, 2016

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Jornal Publico (P), de 09/11/2016, Portugal.

OPINIÃO

É amarga, mas justa, a lição que Donald Trump acabou de nos dar

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso. Trump ganhou. Nós perdemos. Por nós quero eu dizer os meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Segundo as histórias que nós contamos aos leitores e uns aos outros o que acaba de acontecer era impossível.

As nossas sondagens e opiniões – incluindo as minhas – não só se enganaram redondamente como contribuíram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos estados totalitários.

Eu leio todas as semanas duas revistas conservadoras americanas – The Weekly Standard e National Review. Leio todos os dias o igualmente pro-Republicano Wall Street Journal. Em nenhum deles fui avisado que Trump poderia ganhar.

Sinto-me vítima de uma conspiração – não da parte de Trump mas da parte dos media. Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.

Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.

A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso.

Odebrecht expõe ao país o subsolo do abismo

segunda-feira, outubro 10th, 2016

Publicado no Blog do Josias, UOL.

Josias de Souza

A Lava Jato eliminou a ideia de que o Brasil estava condenado a viver à beira do abismo. A operação fez desaparecer a noção de borda. O país escorregou para dentro do precipício. A delação da Odebrecht, que chega ao noticiário em conta-gotas, leva o brasileiro para um outro patamar, bem mais profundo. Com suas revelações devastadoras, os corruptores da maior construtora brasileira expõem à nação o subsolo do abismo. É onde se aloja o insondável. O Brasil está sendo apresentado, finalmente, ao magma que o pariu. No subterrâneo do abismo, o sonho de “estancar a sangria” tornou-se um pesadelo hemorrágico.

Visto de baixo, o governo de Michel Temer ganhou a aparência de um empreendimento precário. Todos sangram. O próprio presidente aparece nas delações requisitando uma odebrechtiana de R$ 10 milhões. Seus amigos e correligionários do PMDB plantam bananeira na areia movediça: Padilha, Moreira, Geddel, Jucá, Renan… Candidatos do Planalto às presidências do Senado e da Câmara, Eunício e Maia são pavios acesos. Aliados como Aécio, Serra e até Alckmin, “o santo”, brincam na lama depois de se banhar nas águas do impeachment.

Tornou-se impossível prever como o governo Temer chegará a 2018. Difícil dizer até mesmo se chegará tão longe. O futuro chega tão rápido que já está atrás de nós. Em 3 de maio de 2015, Emílio Odebrecht, o patriarca da construtora, anotou o seguinte num artigo:

”A corrupção é problema grave e deve ser tratado com respeito à lei e aos princípios do Estado democrático de Direito, mas é fundamental que a energia da nação, particularmente das lideranças, das autoridades e dos meios de comunicação, seja canalizada para o debate do que precisamos fazer para mudar o país. Quem aqui vive quer olhar com otimismo para o futuro —que não podemos esquecer—, sem ficar digerindo o passado e o presente.”

Nessa época, Emílio cobrava, estalando de pureza moral, “uma agenda clara de crescimento com desenvolvimento para o Brasil.” E seu filho, Marcelo Odebrecht, preso em Curitiba, dizia que não seria delator porque não tinha o que delatar. Desnudados pelos investigadores, pai, filho e os santos espíritos da Odebrecht despejam sobre o presente revelações de um passado que leva o país a desacreditar do futuro.

Conselho útil: aperte os cintos. Com a delação da Odebrecht, o Brasil está aterrissando no subsolo do abismo. O PT celebra a chegada de companhia. Quem olha ao redor percebe por que o Brasil é o mais antigo país do futuro em todo o mundo.

O novo currículo para o ensino de segundo grau!

domingo, setembro 25th, 2016

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Hoje eu conversava no facebook com alguns amigos e conterrâneos sobre a mudança proposta! Quando se verifica as muitas facetas desta questão, registradas pelas pessoas que debatiam, percebe-se logo estar diante de um assunto extremamente polêmico!

Pessoalmente, apoio as propostas sem pestanejar sobretudo pelo motivo que um dos meus amigos debatedores registrou: O MODELO ATUAL NÃO ESTÁ DANDO CERTO!

Mas registrei também um fato interessante que ocorreu na minha trajetória e que transcrevo aqui no blog:

Certa vez eu fiz um curso sobre pedagogia do ensino superior e minha equipe foi encarregada de estudar o sistema de ensino alemão! Fiquei perplexo com o que aprendi! Os alemães são tão pragmáticos que parecem cruéis! No fim descobre-se que só são práticos! O estado alemão provê o melhor ensino gratuito de acordo com a região! Tudo já foi mapeado e padronizado! Se você é da Bavária, por exemplo, seu destino é estudar para técnico em agropecuária! Ponto! Se a família acha que o filho é diferente, procura o representante do estado que lhe aplica uma prova daquelas cabeludas para avaliar se o menino merece outro investimento que não seja aquele padronizado! Se passou, tudo bem, o estado facilita a vida do garoto e garante o ensino especial gratuito! Caso contrário, só com o dinheiro da família! E os alemães como se sabe são campeões em tudo, até no 7×1 ! Rs.

Já que estamos todos aqui, façamos uma reunião!

quinta-feira, setembro 22nd, 2016

assalto

O Banco do Brasil manteve por muitos anos um jornalzinho denominado BIP,  Boletim  Interno do  Pessoal. A melhor parte era a última seção, onde publicavam as HISTÓRIAS NÃO ESCRITAS do pessoal da casa. Eu tento recontar aqui aquela que mais me marcou e confesso que não me lembro do autor, mas vou tentar recuperar junto a ex-colegas ou na internet e voltarei ao assunto, seja para reeditar este artigo ou para um reparo num novo artigo.

Um certo funcionário do Banco do Brasil, muito metódico, chegou ao cargo de Gerente de Agência, função que exercia com muita dedicação e esmero. Estando lá na sua terceira ou quarta gerência, ele experimentou um dos momentos mais difíceis de sua vida, um assalto!

Os ladrões colocaram todos os funcionários da agência num único banheiro e gritaram para todos ouvir que se saíssem dali seriam mortos. Muita tensão entre os colegas, silêncio, ouvia-se a respiração irregular de alguns, o choro contido de outros e, quase duas horas depois, o gerente querendo acalmar os colegas e ajudá-los a suportar aquele momento difícil soltou a seguinte frase:

  • Colegas, já que estamos todos aqui, façamos a nossa reunião semanal!

Conta-se que colegas situados em posições mais distante do gerente, murmuravam palavras como doido, doente, louco, biruta, mas outros riram e o clima foi melhorando aos poucos até que resolveram deixar o banheiro. Os bandidos já estavam longe e, para variar, muito tempo depois a polícia chegou.

Há algo para comemorar?

quinta-feira, setembro 8th, 2016

Cooperativas-de-crédito-já-são-o-6º-maior-banco-do-país-21

Há cinco anos o STJ publicou a notícia que pode ser vista no link abaixo

http://stj.jusbrasil.com.br/noticias/2732148/banco-cooperativo-nao-responde-por-relacoes-entre-cooperativa-de-credito-e-seus-associados

mas que também listamos logo a seguir de forma resumida:

Banco cooperativo não responde por relações entre cooperativa de crédito e seus associados
Não há solidariedade passiva entre bancos cooperativos e cooperativas de crédito em relação às operações que estas últimas realizam com seus cooperados. O entendimento foi adotado pela Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que reformou decisão da Justiça de São Paulo para isentar o Banco Cooperativo do Brasil S/A (Bancoob) da responsabilidade pelos valores que um grupo de investidores havia aplicado na Cooperativa de Crédito Rural das Regiões Nordeste Paulista e Sul Mineira (Credibrag), na cidade de Bragança Paulista.De acordo com o ministro João Otávio de Noronha, relator de recurso especial interposto pelo Bancoob contra decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), o sistema de crédito cooperativo funciona de molde a preservar a autonomia e independência e consequente responsabilidade de cada uma das entidades que o compõem. Segundo ele, a obrigação solidária só existiria se fosse prevista em acordo entre essas entidades ou imposta por lei, não podendo jamais ser presumida como estabelece o Código Civil.

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O STJ entendeu que o Banco Cooperativo não têm nada a ver com eventuais prejuízos de associados de cooperativas singulares vinculadas ao sistema cooperativista a que  pertencem!

Imagine se a notícia fosse assim:

As sedes de Bradesco e  Itaú comunicam que não respondem centralizadamente por eventuais prejuízos que os seus milhões de  clientes de suas milhares de agencias vierem a experimentar!  Os clientes que se sentirem prejudicados deverão acionar a justiça local contra a administração da agência em busca de reparação de seus direitos.

Diante de uma noticia como esta você provavelmente iria retirar seu dinheiro dos dois bancos! Certo? Se não retirasse iria diminuir ou passar a monitorar com um certo grau de desconfiança os negócios do banco!

Você deve estar pensando, o exemplo não é bom, pois no caso dos bancos tem-se uma única empresa responsável diante de seus clientes e no caso das cooperativas cada uma delas é uma empresa autônoma, com CNPJ próprio. Entretanto, esta é provavelmente a sensação que um associado a uma cooperativa de crédito teria ao ler a notícia em tela! Nesta hora vale a máxima: farinha pouca, meu pirão primeiro!

Num artigo anterior já sugerimos que os princípios cooperativistas deveriam conversar com a matemática, quando falamos em ótimos globais e locais. Aqui, de novo,  lembramos o óbvio, é preciso conversar também com os princípios econômicos! Sabidamente, os agentes racionais da economia têm forte aversão a riscos. Na medida em que se informa que cooperativas regionais, mesmo participando de sistemas nacionais e adotando a mesma marca, não teriam proteção além dos recursos locais e do definido pelo fundo garantidor, isto com certeza afugentaria antigos e potenciais associados!

Por outro lado,  me vem uma pergunta: as atuais campanhas institucionais das marcas dos sistemas cooperativistas de crédito,  veiculadas inclusive em mídia televisiva, deixam tudo isso muito claro? Dizem com clareza que não há solidariedade entre as entidades que compõem o sistema nacional?

Sabidamente, hoje os sistemas cooperativistas são líquidos (pois ainda operam pouco) quando vistos como um todo, condição já descrita em outros artigos. Entretanto, desconfiamos que casos como este da decisão do STJ, são mais uma medida da entropia (medida do grau de desorganização de um sistema) do que de valor ou vantagem a ser cultivada e comemorada.

Melhor seria se cultivassem a solidariedade, que inspiraria mais segurança e atrairia cada vez mais associados, induzindo assim um crescimento ainda maior dos negócios cooperativistas de crédito.

 

Entendendo a situação atual. PEC 241!

segunda-feira, setembro 5th, 2016

mapa

Imagine que você tenha contado com a confiança de seus parentes e vizinhos durante vinte longos anos, que lhe cederam suas poupanças, na forma de empréstimos, para que você tocasse os seus projetos, que eram muitos. Digamos que você os pagava 14% ao ano e com esse dinheiro você comprou fazendas, empresas de toda a sorte, urbanas e rurais, comerciais, industriais e de serviço e foi montando o seu império. Um império financiado pela sua avó, sua mãe, seus primos, seus vizinhos e seus conterrâneos.

O império vai crescendo, as empresas empregando  os próprios financiadores (os mesmos parentes, vizinhos e conterrâneos) e a sua dívida também aumentando,  mas até um certo ponto as dívidas representam uma pequena fração do faturamento empresarial, as contas são pagas em dia e você cresce cada vez mais e atrai cada vez mais investidores para os seus projetos (mais conterrâneos!).

De repente começam a surgir os primeiros problemas, fraudes em algumas das empresas, mensalões em outras, prejuízos aparecendo e o faturamento do império começa a cair.  A dívida só aumenta, mas você ainda consegue rolá-la, prorrogá-la, pois os parentes, vizinhos e conterrâneos ainda confiam em você. Alguns tem muito dinheiro investido em você (no império) e outros ainda trabalham nas suas empresas e dependem do sucesso do seu império.

Chega a um ponto em que as dívidas (os tais empréstimos que você tomou do povo) representam 70% (setenta porcento) do faturamento das empresas do império e você nota que alguma coisa vai muito mal, pois já não há mais conterrâneos querendo lhe emprestar na mesma taxa de juros e nem no mesmo volume de outrora. Você precisa decidir o que fazer! A situação está ficando perigosa! Quase não sobra mais faturamento para crescer, para gerar novos empregos, para atrair mais gente para o seu império.

Você pensa por dias a fio e percebe que pode adotar uma das seguintes medidas:

a) Comunicar que não vai mais pagar toda a dívida aos seus financiadores/investidores. Digamos que você comunique que reconhece apenas 50% das dívidas e que se alguém quiser mais do que isso, que vá à justiça!

b) Deixar rolar para ver como vai ficar. Você pensa: Ah! uma hora o problema vai estourar e alguém tem que resolver. Daqui a uns cinco anos a dívida já vai superar o faturamento do império e aí a crise ficará clara para todos e aí vamos ver o que faremos!

c) Anunciar que vai congelar os salários e outros gastos por algum tempo até que a relação dívida/faturamento do império fique próxima de 60%. Fazendo isso os investidores, imediatamente,  ficarão mais tranquilos e continuarão investindo no império e em outros projetos, fazendo a economia crescer, revertendo em favor do faturamento do império.

Óbvio que você aqui é o análogo do governo e o império equivale aos gastos e empreendimentos governamentais! A opção “c” é a opção pela PEC 241 que é melhor do que as outras duas, a primeira traumática demais e a segunda impensável. Digamos que a segunda delas seria a opção grega! A mesma adotada pela grécia anos atrás que irresponsavelmente deixou a dívida pública aumentar estratosfericamente.