Archive for the ‘Cooperativas de Crédito’ Category

Cooperativismo de Crédito: um balanço nada combinado!

domingo, julho 1st, 2018

Pobres associados! Pobres contribuintes!

Andando por aí a gente percebe o esforço dos funcionários das cooperativas singulares em busca de crescimento da participação de mercado do segmento cooperativista de crédito, em muitos casos duelando com gigantes do setor financeiro. Mas carregam um grande peso em suas sedes, incluindo aí as muitas cooperativas centrais.  Quem acompanha os meus artigos no blog www.blogdocastellano.com.br sabe das críticas (e sugestões) que faço com relação ao excesso de diretorias, de cargos, de cooperativas centrais, de órgãos criados por aqueles que se instalam nas sedes dos sistemas cooperativistas e nas cooperativas centrais, dos sistemas organizados em três níveis. Na prática, repetem os piores passos dados pelo setor público, gerando ineficiência e dificultando o avanço do cooperativismo de crédito.

Quando se observa o balanço combinado dos maiores sistemas cooperativistas, normalmente publicado com grande atraso,  não se percebe o que representam as cooperativas centrais e as confederações nacionais, dado que não ficam explícitos na consolidação (ou combinação) os elevados custos de manutenção desses órgãos. Se o associado tivesse a chance de conhecer melhor os muitos órgãos criados nas sedes dos sistemas cooperativistas perceberiam, por exemplo, a exagerada quantidade de pessoal alocada em áreas de “tecnologia”, com baixíssima produtividade, evidenciada pelos muitos sistemas criados e em desuso, verdadeiros elefantes brancos. Aliás, aqui também, navegam na contramão do mercado, que cada vez mais terceiriza os seus serviços, levando para a chamada nuvem (cloud computing), as suas aplicações e toda a infraestrutura de Tecnologia da Informação. O excesso de funcionários e equipamentos só interessam a alguns poucos dirigentes e a alguns poucos fornecedores.

Embora consumam uma verdadeira fortuna em viagens à Alemanha, berço do cooperativismo de crédito, muitos dirigentes privilegiados, mesmo depois de visitarem pela décima vez (e há dirigentes que fazem isso há 30 anos) as instalações das principais entidades cooperativistas alemãs não conseguem absorver a cultura de eficiência e seriedade que lá fundamentam o cooperativismo de crédito. Por aqui o cooperativismo depende fortemente dos subsídios governamentais (bancados pelo contribuinte) e tem baixíssima participação de mercado. Aqui em terras tupiniquins pode-se dizer que o cooperativismo de crédito vive de uma ciranda financeira propiciada pelas elevadas taxas de juros e subsídios, sem fomentar as economias regionais como preconiza a cartilha onde aparecem listados os seus princípios fundamentais. Esta condição está hoje ancorada nas elevadas taxas de juros do sistema financeiro, nas isenções fiscais e nas verbas subsidiadas de crédito rural. Mudando qualquer um desses fatores os sistemas cooperativistas sofrerão impacto relevante na sua geração de caixa e nas sobras.

Por outro lado, em tempos de divulgação e incentivo à gestão integrada de riscos, o Banco Central, com os seus competentes funcionários, deveria examinar com mais atenção a divisão política que esses sistemas cooperativistas fazem de sua estrutura de gestão de riscos. Os conhecidos conflitos de interesse que rondam os sistemas cooperativistas podem ser multiplicados e deixar um legado sinistro para os associados e mesmo para o contribuinte brasileiro. Uma divisão equivocada e política pode dificultar a identificação dos riscos nas sedes, cooperativas centrais e mesmo nas cooperativas singulares, turvando a visão de uma ou mais entidades do sistema. Some-se a isso dois fatos importantes: i) o baixo nível de capitalização do Fundo Garantidor das Cooperativas – FGCOOP, que mantém cerca de R$ 850 milhões para fazer frente a mil cooperativas de crédito, das quais mais de 20 (vinte) delas possuem depósitos em valor superior ao patrimônio do fundo garantidor, padrão bastante distinto do FGC, o fundo garantidor dos bancos; ii) a troca em 2014 da área de fiscalização das cooperativas pelo Banco Central, antes fiscalizada pelo mesmo órgão que acompanha os bancos, reduzindo o nível de exigência técnica e de eficiência sobre os sistemas cooperativistas, sobretudo das sedes.

Ponto alto deste artigo,  ofereço aqui uma nova sugestão. Dado o volume de recursos públicos injetados nos sistemas cooperativistas, o Banco Central deveria criar regra que permitisse a participação de representantes por ele indicados, oficialmente,  nos conselhos de administração e fiscais dos órgãos de sede, sem direito a voto, apenas como ouvintes. Isto aumentaria a compreensão do órgão regulador sobre os problemas que afligem os sistemas cooperativistas de crédito, notadamente no sentido de estimular um regramento que incentive a visão sistêmica e não a de interesses particulares.

Cada um por si, quase ninguém por nós   (Ana Carla Abrão – Agência Estado), 05-06-2018

terça-feira, junho 5th, 2018

A reconstrução do Brasil passa pela nossa capacidade de entender que o público que se tornou privado está roubando a todos nós um pouco a cada dia. O Brasil está tão viciado em subsídios, em benesses e em privilégios que chega a ignorar que essa conta, ao final, recai sobre a sociedade por meio de mais impostos ou maior desigualdade.

O Brasil está tão tomado e o Estado tão capturado que não mais se distingue o público do privado. É o patrimonialismo que volta e meia dizemos atacar, mas que na prática continua aí, teimando em se perpetuar. São sempre os mesmos, organizados em grupos de pressão, dentro e fora do setor público, que se beneficiam de recursos públicos, à custa de um País que já exauriu sua capacidade de tributar. São grupos que tomaram de assalto o Estado, as políticas públicas, as decisões legislativas e as ações de governo.

Exemplos não faltam, nesses tempos difíceis que vivemos. Ministérios se consolidaram como latifúndios partidários – e por vezes até familiares. Esta semana, o presidente Temer disse que considerava tirar o Ministério de Trabalho do PTB. Infelizmente, não é retórica. Assim como esse, vários são os ministérios e órgãos cujas ações financiadas com dinheiro público têm como única motivação o atendimento de interesses políticos específicos, na melhor das hipóteses. As ações públicas se tornaram moeda com a qual se compra apoio político aqui, um palanque ali ou um voto acolá. Como coordenar ações de governo nesse varejo de interesses? Afinal, se o loteamento leva ao atendimento de interesses específicos, não necessariamente convergentes entre si, onde estará o benefício público?

No Congresso, projetos de leis ficam à mercê de grupos de pressão. Modernizações necessárias e urgentes do nosso arcabouço legal e correções dos exageros e erros de políticas equivocadas esbarram nos lobbies de empresas privadas, organizações cartoriais ou sindicatos de servidores públicos barulhentos e influentes. Boa parte dos nossos parlamentares teve suas campanhas financiadas por esses grupos e, ao final do dia, acabam por servir aos seus financiadores e não aos seus eleitores. Afinal, quem ganha com a dificuldade de aprovação de leis importantes como a do cadastro positivo ou da duplicata eletrônica? E pelo não adiamento do aumento dos servidores públicos em pleno descalabro fiscal? A resposta, certamente, não é o cidadão.
No Judiciário, aquele poder que parece estacionado em Lisboa, o teto salarial e os auxílios-moradia deixaram de ser discutidos em uma ação de ninguém sabe, ninguém viu. Além disso, os supersalários, aqueles que o Conselho Nacional de Justiça disse investigar, estão guardados a sete chaves pois são legais e por isso, inquestionáveis. Esse mesmo judiciário se arma contra qualquer iniciativa de modernização que ameace as receitas dos cartórios, que são também suas receitas, e entrega uma justiça lenta, com tribunais abarrotados de processos e uma avaliação da população de que temos um dos piores – e mais caros – judiciários do mundo. Insisto, onde está o interesse público?
A reconstrução do Brasil passa pela nossa capacidade de entender que o público que se tornou privado está roubando a todos nós um pouco a cada dia. Nos Ministérios, nas empresas públicas, nas leis, na aplicação das leis e nas ações de governo. Cada subsídio, cada desoneração, cada política específica, ao beneficiar alguns, tira de muitos. Nos poucos casos em que há benefício coletivo indireto, custos e resultados têm de ser medidos, acompanhados, orçados e divulgados.
Precisamos fazer a pergunta certa e cobrar de quem detém a legitimidade do voto que reflita sobre como o interesse público se coloca em cada uma das suas ações. E nenhuma ação se justifica se não tiver nele o principal benefício. Hoje são poucos – mas os há e são louváveis e merecem o nosso reconhecimento e respeito – aqueles no governo que olham por todos nós. São bastiões que nadam em águas cada vez mais turvas, mas que mantém o rumo. São esses que agem em favor dos que padecem num Brasil pobre, deseducado, desmotivado e sem perspectivas. Quiçá 2019 nos traga esses e muitos outros assim, que trabalharão por nós e não por si. 

Sobre o rentismo Tupiniquim

segunda-feira, março 19th, 2018

Eu tenho destacado em vários artigos o viés rentista do nosso sistema financeiro. Veja o artigo sobre a posição do Brasil no ranking dos países com maiores taxas de juros reais.

https://g1.globo.com/economia/noticia/brasil-cai-para-5-no-ranking-mundial-de-juros-reais-melhor-posicao-em-13-anos.ghtml

 

Diga-me como é a tua rede e eu direi quem tu és!

sábado, fevereiro 24th, 2018

Eu tenho chamado a atenção para o fato de o contribuinte brasileiro estar financiando uma rede de cooperativas de crédito que não atende as suas necessidades presentes e, a continuar nesse ritmo, não atenderá no futuro. As cooperativas fazem muito pouco crédito e com isso fomentam muito pouco as economias regionais, contrariando os seus próprios princípios cooperativistas. Este artigo volta-se, sobretudo, para os sistemas cooperativistas de crédito, organizados em três níveis, que representam mais de 80% (oitenta por cento) dos negócios do chamado Sistema Nacional de Crédito Cooperativo.

Se você acessar www.blogdocastellano.com.br vai se deparar com um conjunto de artigos onde faço críticas e ofereço sugestões para melhorar a situação atual. De uma maneira geral, resumo aqui o que precisa ser feito: i) melhorar a estrutura organizacional dos sistemas cooperativistas de crédito, reduzindo o número de órgãos e diretorias; ii) alterar a legislação para incentivar a renovação de dirigentes; iii) unificar empresas prestadoras de serviços inter-sistemas cooperativistas de maneira a permitir uma economia de escala e vantagem competitiva; iv) investir em sistemas padronizados de processamento de dados, notadamente para massificar o crédito no ambiente cooperativista; e v) criar um fundo para incentivar a criação de pontos de atendimento em regiões hoje não atendidas.

Para elaborar este artigo passei o período do feriado de carnaval baixando e cruzando dados do Banco Central (Bacen) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para estudar tanto a rede bancária (agências e pontos de atendimento bancário – pab) quanto a rede de cooperativas ou rede do Sistema Nacional Cooperativista de Crédito – SNCC (cooperativas sede e postos de atendimento cooperativo – pac).

Foi um festival de “procv”! (risos). Para quem não conhece o aplicativo Ms-Excel, a “procv” é uma função que permite cruzar planilhas de dados através de um campo comum. Assim cruzei dados de municípios (população) com quantidades de agências, cooperativas sede e seus postos de atendimento.

Vamos então à primeira tabela, a Tabela 1 que apresenta a distribuição dos pontos de atendimento pelos municípios brasileiros.

Note que temos ainda 365 municípios sem qualquer atendimento bancário ou cooperativo. A rede bancária deixa de estar presente em 534 municípios e a rede de cooperativas em 2.884. Note também que dos 1.237 municípios até 5.000 habitantes, a rede bancária deixa de atender 424 e a rede de cooperativas se ausenta em 691. Outro ponto importante, em municípios com mais de 20.000 habitantes os bancos estão sempre presentes, já as cooperativas deixam de atender municípios que também possuem elevada densidade populacional, como é o caso dos 48 municípios de médio porte (população entre 100 e 500 mil habitantes) não atendidos pelas cooperativas.

Na Tabela 2, resumimos algumas estatísticas simples. Por exemplo, 99,oo% da população dos municípios brasileiros são atendidos pela rede bancária. As cooperativas incrementam esse número em apenas 0,29%, atendendo 169 localidades onde os bancos não chegam. Pode-se dizer que a rede de cooperativas não acrescenta muita coisa à rede bancária em termos de topologia. Em outras palavras, o brasileiro não pode contar com as cooperativas para preencher claros deixados pelos bancos, pois elas tendem a ser um subconjunto da rede bancária. E mais, hoje se a rede bancária deixasse de existir as cooperativas deixariam sem atendimento quase metade dos municípios brasileiros.

 

Na Tabela 3 fizemos um trabalho numérico equivalente à comparação visual das formas de duas figuras. Na verdade três. Comparamos a distribuição da população pelos municípios com a distribuição da rede de postos de atendimento dos bancos e com a distribuição da rede de atendimento das cooperativas. Note que na segunda, quarta e sexta colunas temos os percentuais que representam as distribuições dos pontos de atendimento da rede dos bancos, da rede de cooperativas e da população brasileira pelo território nacional.

Nas duas últimas colunas da Tabela 3 listamos números que indicam a distância da rede bancária e da rede de cooperativas, respectivamente, à distribuição da população. Utilizamos a distância quadrática para medir o afastamento das duas redes à distribuição natural da população. Note que a rede bancária ficou com distancia total de 12,96 e a rede de cooperativas alcançou a distância de 39,05.

O que isto significa?

Que a rede de cooperativas está bem mais distante da população em geral do que a rede bancária. Eu venho dizendo isso de outras maneiras, talvez de uma forma mais qualitativa, em outros artigos. Aqui quantificamos a distância do cooperativismo para o povo em geral. Esta distância tem se revelado sobretudo com relação a micro e pequenos empresários que, em países europeus ou norte-americanos, onde o cooperativismo de crédito desenvolveu-se mais, são os principais beneficiários do cooperativismo.

Aqui, em paragens tupiniquins,  nossa rede de cooperativas é dominada pelos grandes produtores rurais e tem se mantido no circuito rico do agronegócio, ou agribusiness, como gostam de dizer. Se não mudarmos esta situação, no futuro, nossa história contará mais algumas páginas de injustiças, descrevendo a transferência de riqueza do contribuinte brasileiro para o setor mais abastado da sociedade.

Mas ainda há tempo de mudar esta história!

Cooperativismo de Credito: deitados em subsídios esplêndidos!

quarta-feira, janeiro 3rd, 2018

Tom Jobim já dizia que o Brasil não é para principiantes.

Aqui em terras tupiniquins se diz que o melhor negócio é um banco bem administrado, o segundo, um banco mais ou menos administrado e o terceiro, um banco mal administrado. Imagine uma cooperativa de crédito que na prática funciona como um banco e que está isenta de todos os tributos e contribuições!

A constituição de 1988 e leis subsequentes privilegiaram o cooperativismo de crédito para que ele ocupasse um espaço não preenchido pelo oligopólio bancário brasileiro, levando o crédito aos cidadãos e a custos menores do que a banca tradicional.

Você sabe quais as facilidades que o cooperativismo de crédito tem direito por lei? São isentos de Imposto de Renda, da Contribuição Social, da contribuição para o PIS, da contribuição para a Cofins e ainda tem acesso a bilhões de reais em recursos subsidiados do crédito rural, recursos que custam entre 3 e 8,5% ao ano, num país onde a taxa básica de juros esteve na média em 12 % ao ano em 2016 e agora caminha para 10 % ao ano. Em suma, as cooperativas tem uma enorme vantagem sobre os bancos comuns, pois são isentas em percentual próximo de 50% de seu faturamento liquido.

Mas tanta isenção para quê? A riqueza transferida do contribuinte brasileiro para o cooperativismo de crédito não tem fomentado da maneira possível e esperada a atividade econômica, via crédito. A carteira total do Sistema Cooperativista de Crédito (SNCC) responde por apenas 3% (três por cento) da carteira total do Sistema Financeiro Nacional (SFN). É muito pouco para tanto subsídio!

Uma possível solução, para que o cooperativismo saia desse enrosco, poderia vir de entidades de classe, como a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), que poderiam empreender ações para estimular o desenvolvimento da carteira de crédito bem como a busca pela eficiência operacional, estabelecendo metas para os sistemas cooperativistas, a começar dos dois maiores, Sicoob e Sicredi, comparando-os, elegendo melhores práticas a serem seguidas por todos.

Sabidamente, o Sicredi tem melhor arranjo organizacional, melhor padronização de processos, e isso poderia ser divulgado como melhor prática a ser perseguida tanto pelo Sicoob quanto pelos outros sistemas regionais.

Um aspecto muito importante é o investimento em infraestrutura tecnológica e processos padronizados para permitir a massificação do crédito, retirando os sistemas cooperativistas do conforto da mera arbitragem da taxa de juros, ou seja, de permanecer tomando recursos subsidiados do governo para voltar a emprestá-lo a taxas maiores ao próprio governo.

O Banco Central (Bacen) aparenta viver um dilema particular, dividindo-se entre o papel de padrinho e fiscalizador dos sistemas cooperativistas! Faz-se necessário que alguma outra entidade, governamental ou não, fiscalize os sistemas cooperativistas, não sob o aspecto do risco, função a cargo do Bacen, mas sob o aspecto da utilidade de suas ações para a sociedade.

Se as cooperativas não se desenvolvem, acabam se transformando num clube pequeno e fechado de rentismo com dinheiro público! E se olharmos com atenção perceberemos que os dois maiores sistemas cooperativistas de crédito são dominados por produtores rurais ricos da região sul-sudeste do país, que controlam os bancos cooperativos, o que acaba por reduzir o escopo de atuação das cooperativas aos interesses desses controladores.

Uma outra solução possível para estimular o crescimento dos negócios e dos associados seria mudar a forma de concessão dos subsídios governamentais, repassando-os às cooperativas ex post facto e não como é hoje! Na medida em que cumprirem alguma meta financeira e social, combinada com o governo, passariam a ter direito aos subsídios fiscais! Isto direcionaria os sistemas cooperativistas para os verdadeiros propósitos do cooperativismo de crédito que é o fomento da economia via crédito.

Atualmente, as cooperativas ficam num discurso de que não são e não querem ser iguais aos bancos, mas agem de forma cada vez mais parecida com o oligopólio bancário brasileiro: emprestam muito pouco e para alguns poucos privilegiados. Claro que há exceções, cooperativas que são verdadeiros exemplos a serem seguidos.

Cooperativismo de Crédito: à espera de mudanças para um grande ciclo de crescimento!

terça-feira, janeiro 2nd, 2018

Se você acompanha os meus artigos deve perceber que sou crítico com relação ao fato de os sistemas cooperativistas de crédito, possuidores de bancos cooperativos, terem uma participação modesta nos negócios de crédito do Sistema Financeiro Nacional e muito concentrada em grandes produtores rurais do sul-sudeste do país. Os enormes subsídios governamentais não tem sido suficientes para direcionar o cooperativismo para uma verdadeira atividade de fomento econômico,  ficando restrito aos interesses de um pequeno grupo de produtores rurais ricos e rentistas. Uma boa parte do dinheiro que circula nos sistemas cooperativistas fica numa ciranda financeira que consiste basicamente em tomar recursos baratos do governo e voltar a emprestá-los a taxas maiores para o mesmo governo central, com a diferença sendo paga, evidentemente, pelo contribuinte brasileiro, que pouco participa do cooperativismo de crédito.

O ponto central é que se perdem muitas oportunidades com esse mau direcionamento dos recursos governamentais, num país com tantos problemas sociais, econômicos e  fiscais.  Há que se pensar criativamente a respeito de uma nova forma de se exigir contrapartidas à concessão de subsídios aos sistemas cooperativas de crédito, induzindo-os a uma maior participação no crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN), notadamente no financiamento à atividade de micro e pequenas empresas, algo consagrado no cooperativismo mundo afora.

O Cooperativismo perde muito tempo, energia e recursos financeiros com uma grande quantidade de entidades na sua estrutura organizacional que pouco contribuem para o seu crescimento. Ao contrário, cria-se internamente uma espécie de torre de babel,  que dificulta os negócios, o cumprimento de metas e até mesmo a gestão dos riscos. Exemplo disso é o número exagerado de cooperativas centrais e cargos de diretorias que, muito além do custo que representam, acabam por criar dificuldades para as mudanças de que os sistemas precisam. São estruturas arcaicas, moldadas ao gosto de dirigentes que buscam eternizar-se no poder, tal e qual aconteceu com os cartórios e os muitos sindicatos de trabalhadores  no país.

A despeito da qualidade de seus funcionários, o Bacen parece enxergar de longe os problemas do cooperativismo de crédito. Falta energia para impor ao cooperativismo (pelo menos enquanto depender de tantos recursos públicos!) um modelo organizacional mais racional, induzindo-os à simplificação das estruturas tanto na sua Sede quanto nas entidades de segundo grau. Tanto é assim que, embora emprestem muito pouco (a carteira de crédito das cooperativas representa cerca de 3% da carteira total do SFN), acabam por gerar concentrações indesejáveis de risco de crédito em cooperativas que assistem a um único  setor econômico, notadamente naquelas que controlam o Banco Cooperativo, evidenciando um flagrante conflito de interesses.

Desta forma, a norma atual do Banco Central que permite o livre repasse de crédito rural dos bancos cooperativos às cooperativas não colabora com a diversificação do risco de crédito em nível setorial. Há que se estabelecer um limite máximo para o repasse a uma mesma cooperativa, em função do patrimônio líquido do banco cooperativo. Caso contrário, uma eventual crise num determinado setor econômico pode arrastar consigo uma ou mais cooperativas de crédito, penalizando os associados de todo o sistema cooperativista ou mesmo encarecendo a manutenção de seu Fundo Garantidor de Crédito – Fgcoop.

Há que se registrar também que as contribuições para o Fgcoop precisam ser balizadas pelo risco de cada cooperativa e não através de rateio linear. Em 2014, o Banco Central permitiu que os dois maiores sistemas cooperativistas resgatassem os recursos de seus fundos garantidores privados para iniciar com apenas R$ 200 milhões o Fgcoop, o Fundo Garantidor coletivo do Sistema Nacional Cooperativista de Crédito, uma medida sem o amparo de uma sólida fundamentação técnica.

Atualmente o Fgcoop conta com cerca de R$ 800 milhões o que representa apenas 0,6% dos valores garantidos, quando o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) dos bancos, tem percentual superior a 3%.  Cite-se, ainda, que há mais de vinte grandes cooperativas associadas ao Fgcoop que possuem depósitos superiores a esse valor, o que aumenta a percepção de risco, quando se compara com a situação do FGC, onde apenas os cinco maiores bancos tem volumes garantidos superiores ao seu patrimônio.

Por fim, lembro que a decisão do STJ, de 2011, que não reconheceu a solidariedade natural entre as entidades cooperativistas, coloca em posição desvantajosa as cooperativas de menor porte, privilegiando mais uma vez as grandes cooperativas de produtores rurais ricos,  controladoras do banco cooperativo de seu sistema. As grandes cooperativas tem os seus muitos recursos financeiros aplicados no banco cooperativo blindados contra eventuais demandas judiciais das pequenas cooperativas, as primas pobres, mas podem, elas mesmas, abandonar o barco a qualquer instante, para montar outro sistema e quiçá um outro banco cooperativo.

 

Os Sistemas Cooperativistas de Crédito, os Bancos Cooperativos e o Banco Central

terça-feira, novembro 21st, 2017

Os Bancos Cooperativos foram criados em meados dos anos 90 com propósitos bem mais modestos do que o que fazem atualmente pelas cooperativas singulares vinculadas aos sistemas a que pertencem. No início a intenção era apenas realizar a compensação e ser a reserva bancária das cooperativas singulares, livrando-as de serviços contratados no mercado, regra geral, a preços proibitivos. A partir de então passaram a ter um cheque exclusivo com a marca do sistema ao qual estavam vinculadas e passaram a aplicar as suas sobras de caixa diretamente nos seus bancos cooperativos. Contando com tesourarias próprias, os bancos cooperativos aplicam estas sobras, que denominam centralização financeira, no mercado de títulos, ora via Selic, ora via Cetip. Estas receitas da centralização sempre foram e ainda são muito importantes na formação do resultado financeiro das cooperativas, já que a taxa de juros da dívida pública brasileira sempre foi muito elevada, trazendo muitas facilidades às instituições financeiras e ônus à sociedade que a financia via impostos.

De maneira que a partir de então, os sistemas cooperativistas organizados em nível nacional passaram a fazer parte do seleto grupo de banqueiros que ganham muito dinheiro só com o financiamento da dívida pública, em outras palavras, empréstimos ao governo central. Em tempos passados esse negócio já foi chamado de ciranda financeira, exatamente pelas elevadas taxas de juros pagas pelo governo brasileiro!  Registre-se que há tantas facilidades (ou distorções?!) aqui em terras tupiniquins que um Sistema Cooperativista de Crédito, nos momentos em que a taxa Selic situa-se em patamar superior a 10% ao ano, poderia viver só das isenções fiscais e da centralização financeira, não precisando realizar qualquer operação de crédito para conseguir elevados lucros (sobras).

Os Bancos Cooperativos cresceram muito nos primeiros anos do século vinte e um, notadamente no período que vai de 2003 a 2014. Foi um período em que tiveram muitas facilidades governamentais, fartas verbas subsidiadas para o crédito rural (com a qual lucram muito, notadamente os controladores dos Bancos Cooperativos) e completa isenção fiscal. Embora a isenção fiscal se dê apenas nas cooperativas, os Bancos Cooperativos adotam uma estratégia tributária eficiente para deixar os lucros com as cooperativas, via preços internos de transferência, de maneira a minimizar o seu próprio lucro, transferindo o grosso do resultado para aquelas. Não há nada de ilegal nisso.

Os Sistemas Cooperativistas organizados em três níveis sofrem com o seu modelo organizacional ineficiente. Sob forte influência política de Cooperativas Centrais que disputam e tentam conservar-se eternamente no poder, notadamente as do Sul e Sudeste do país, impondo estruturas organizacionais confusas e obsoletas, mas que lhes garantem o controle total do Banco Cooperativo e das cooperativas em si, os Sistemas Cooperativistas vem patinando e crescendo muito pouco, frente ao potencial existente, mesmo diante da crise atual . Há muito que estas cooperativas centrais deveriam ser transformadas em superintendências da Confederação Nacional, estando os seus dirigentes comprometidos com uma estratégia única.

Tudo isso ocorre sob o olhar desatento de um Banco Central que embora tenha funcionários muito capacitados, insiste num modelo míope de controle que se preocupa apenas com os riscos sistêmicos. Como os sistemas cooperativistas são pequenos (detém menos de três por cento dos negócios do Sistema Financeiro Nacional) e, segundo a visão daquela autarquia, não podem causar dano relevante ao sistema financeiro como um todo, acabam sendo pouco acompanhados, ficando livres para introduzirem no jogo um elevado grau de politização, que consome energia e impede o seu pleno desenvolvimento! Eis que aquela autarquia, nos idos de 2011, retirou os sistemas cooperativistas da jurisdição de seu departamento mais técnico, responsável pela fiscalização dos bancos em geral, criando uma área específica e mais complacente com o SNCC (Sistema Nacional de Crédito Cooperativo) para realizar o acompanhamento. Todos esperamos que essa medida não seja equivalente àquilo que vem acontecendo com o ensino público em alguns estados, onde as escolas são praticamente obrigadas a aprovar o aluno apenas para dourar as estatísticas.

Na verdade, há muito que os Sistemas Cooperativistas deveriam ter migrado para uma estrutura organizacional mais racional, com as entidades de terceiro grau reunidas sob o comando de uma única diretoria e com as Cooperativas Centrais transformadas em Superintendências Regionais desta Sede única. Com isso as cooperativas singulares estariam muito melhor servidas nas suas necessidades e seriam muito mais competitivas, inclusive estando preparadas para a diminuição da ajuda governamental que pode se esgotar com o tempo, seja pela redução do volume de verbas subsidiadas para o crédito rural, seja pela redução da isenção fiscal ou mesmo pela redução permanente da taxa básica de juros. Notem a queda nos resultados financeiros dos sistemas cooperativistas neste ano de 2017, isto se dá diante da redução da taxa básica de juros de incríveis 14,0 % ao ano para 7,5 % ao ano.

Atualmente, sob o controle das grandes Cooperativas Centrais, reduto de produtores rurais ricos do sul-sudeste brasileiro, os bancos cooperativos limitam os seus negócios de crédito praticamente ao crédito rural, interesse exclusivo desses poucos controladores. Fazem uma verdadeira ginástica para tomar recursos subsidiados de outros bancos, entregando quase o dobro do valor em garantias financeiras, incorrendo no chamado risco de descasamento, para transferir riqueza de todos para o subconjunto das grandes cooperativas controladoras do Banco Cooperativo. Com a criação do Fgcoop e com a decisão do Superior Tribunal de Justiça de 2011, os grande produtores rurais, conseguiram tudo o que queriam. De um lado, democratizaram o risco, distribuindo o custo da proteção de suas grandes cooperativas por todas as outras. Por outro lado, a decisão do STJ, que não reconhece a solidariedade natural entre as entidades cooperativistas, lhes deu uma blindagem poderosa para defender a sua riqueza instalada no Banco Cooperativo contra eventuais ações judiciais que vierem das demais cooperativas singulares.

Como dissemos, um Banco Central desatento, não percebe e não utiliza o seu poder discricionário para impor um grau maior de racionalidade na organização dos sistemas cooperativistas, o que poderia contribuir não com os atuais dirigentes, mas com um cooperativismo de crédito verdadeiro que precisa crescer para restituir à sociedade as benesses de que usufrui. Hoje pode-se dizer sem chance de errar que o cooperativismo é excelente para os dirigentes, bom para alguns grandes produtores rurais, deficiente para os cooperados em geral e péssimo para o contribuinte que banca boa parte da festa!

Mundo afora o que se tem é um cooperativismo que também apoia o micro e pequeno empreendedor urbano e por isso se faz merecedor das isenções fiscais e de outros incentivos governamentais. Por aqui, ficamos torcendo para que o Banco Central cumpra ainda com mais ênfase o seu papel de responsável pela eficiência do Sistema Financeiro Nacional, induzindo os sistemas a se ajustarem para crescer.

A Teoria do Risco Financeiro – Parte II

domingo, novembro 19th, 2017

Continuando, vimos que Markowitz ensinou-nos a trabalhar com carteiras para obter o máximo de diversificação do risco. Inclusive demonstrou que uma combinação dos ativos de risco pode produzir uma carteira especial, denominada carteira de mínima variância (mínimo risco) que produz um retorno maior com risco menor do que uma aplicação individual no ativo de menor risco.

Do ponto de vista matemático o risco total de uma carteira, medido pelo desvio-padrão, depende dos riscos individuais (desvio-padrões de cada um dos ativos) e das correlações medidas duas a duas entre os diferentes pares de ativos passíveis de serem formados. Para n ativos a fórmula trabalha com n termos de risco individual e n.(n-1)/2 termos de correlações. Ou seja, para uma carteira com dez ações, teremos 10 termos de riscos individuais (riscos de cada um dos dez ativos) e 45 termos de correlação. O número 45 reflete o total de combinações de ações duas a duas para as 10 ações. Pela quantidade de termos de correlação na fórmula de Markowitz percebe-se a importância das correlações na determinação do risco final da carteira (desvio-padrão da carteira). Vamos colocá-la abaixo mas não é para assustar, só para você visualizar o que escrevemos aqui neste parágrafo.

A letra sigma representa o desvio-padrão. O primeiro que aparece no lado esquerdo da fórmula é o desvio-padrão da carteira elevado ao quadrado que também é chamada de variância da carteira. No lado direito note que o primeiro somatório representa os n termos de risco individual e o segundo mostra a explosão de termos de correlação em função das combinações possíveis dos n ativos, dois a dois. Os w representam as proporções dos ativos na carteira, a letra rô (que parece um pezinho) representa a correlação entre um par de ativos.

Pronto, deixemos a matemática de lado! Tava doendo? Agora passou! (risos). Vamos falar linguagem de gente. Pois bem, num mundo repleto de ativos de risco em que o investidor é avesso ao risco e que se pode formar carteiras, devemos tomar a teoria do portfólio e calcular a fronteira eficiente. Ela vai mostrar todas as carteiras eficientes do menor risco para o maior risco. O maior risco sempre corresponderá à aplicação individual no ativo de maior risco e maior retorno. Aqui, por hipótese, supomos que na medida em que se aumenta o risco, aumenta-se a expectativa de retorno. Veja a figura baixo para a fronteira eficiente de Markowitz.

Note que tem uma hipérbole superior que começa na carteira de risco mínimo, apontada pela seta. Esta é a chamada fronteira eficiente de Markowitz. A parte de baixo (a semi hipérbole abaixo da seta) não faz parte da fronteira eficiente, pois é dominada pela fronteira eficiente. Note que no rumo do risco 19% tem um ponto com retorno esperado de 6,1%. Mas esta carteira é ineficiente e dominada pela carteira com risco 19% e retorno esperado de 6,4%. Conseguiu visualizar? Então, a fronteira eficiente de Markowitz é a semi hipérbole superior.

Agora, veja a próxima figura que ilustra a diversificação crescente mas limitada do acréscimo de ativos de risco na carteira:

Também há o risco sistemático ou não diversificável que não pode ser minimizado, mas previsto, sendo relacionado com as variações de mercado.

Veja que a hipérbole que mede a relação retorno esperado x risco (medido pelo desvio-padrão da carteira) vai se aproximando assintoticamente de uma linha horizontal, indicando não haver mais possibilidade de diversificação. Atinge-se um patamar mínimo de risco da carteira depois de se eliminar os muitos riscos específicos, conforme a reta vermelha pontilhada. Examinando isso, William Sharpe teve uma idéia de criar uma nova métrica para medir este risco que sobra após a diversificação que explicaremos melhor mais à frente.

Vamos voltar a Markowitz! Olha, você viu o tamanho da fórmula que calcula o desvio-padrão da carteira. É enorme! Lá em 1952 não era nada fácil resolver este problema pois não se tinha os computadores que temos hoje. Então, Markowitz foi financiado por grandes empresas que patrocinaram as suas pesquisas para desenvolver algoritmos eficientes para o cálculo dos pontos da fronteira eficiente. Hoje isso é bem mais tranquilo, nós citamos que o solver do Excel nos socorre para carteiras com tamanho próximo de 50 ativos. Entretanto, hoje em dia temos softwares muito mais poderosos e específicos para resolver problemas de otimização, que aparecem como módulos do SPSS, do SAS e muitos outros pacotes de estatística ou matemática. Há também um SOLVER profissional, mais caro do que aquele que vem com o Excel.

Num cenário de cálculos complexos numa era com dificuldade em se obter computadores sofisticados como os que temos hoje, Sharpe teve uma sacada para simplificar e evoluir a teoria de Markowitz. Veja a figura abaixo:

Note que a semi hipérbole FM é a fronteira eficiente de Markowitz para os ativos de risco. O ponto Rf corresponde ao ativo livre de risco e o ponto M representa a carteira de mercado. Uma carteira com todos os ativos de mercado nas suas proporções naturais. Então, Sharpe acrescentou premissas à teoria de Markowitz: definiu que o investidor poderia operar com o ativo livre de risco e com a carteira de mercado. Ou seja, poderia manter uma carteira tão diversificada como a carteira de mercado combinado com uma aplicação no ativo livre de risco. Com isso, Sharpe demonstra que a reta PMQ é a verdadeira e nova fronteira eficiente de mercado, dominando a fronteira eficiente de Markowitz.

Vamos parar para respirar!

Vou resumir a idéia de Sharpe: se o investidor pode contar com aplicações no ativo livre de risco e em carteiras que são frações da carteira de mercado ele montará carteiras que ficarão na reta PMQ, a chamada linha do mercado de capitais. Note então que um investidor preferirá navegar neste mundo do que ficar só no mundo de Markowitz onde se operaria apenas com ativos de risco. Na prática esta teoria tem premissas muito mais exigentes do que as de Markowitz, pois considera como sendo trivial operar com uma carteira amplamente diversificada, que teria todos os ativos de mercado nas suas proporções naturais. Ora, isso é obviamente muito difícil de se montar. O que se faz, na prática, é se admitir que a carteira teórica da bolsa é uma aproximação dessa carteira de mercado da teoria de Sharpe. O ativo livre de risco pode ser aproximado pelos títulos do tesouro. No caso do nosso país, o Ibovespa com as suas 70 ações (aproximadamente) seria a tal carteira de mercado.

Muito bem, com isso, Sharpe indicou que nesse mundo teórico que criou o que importa é o chamado risco sistêmico que cada ativo tem e não o seu risco total medido pelo desvio-padrão. A mesma coisa vale para as carteiras, que são combinações de ativos de risco com o ativo livre de risco. Para medir esse risco sistêmico ou sistemático inerente a cada ativo Sharpe criou a métrica Beta (βp). O Beta corresponde à razão entre a covariãncia do ativo com o mercado (Ibovespa, por aproximação) e a variancia da carteira de mercado. Desculpe, eu tinha que citar isso. Mas vamos tentar traduzir a matemática em português claro. O Beta de cada ativo mede o quanto ele varia com relação ao mercado. Isto porque o investidor tem sempre um monte de ativos na carteira e sabe que a própria carteira cumpre a função de diversificar os riscos específicos, praticamente reduzindo-os a zero. Então, o que interessa é o risco sistêmico de cada ativo e o risco sistêmico da carteira. Este último é medido pela ponderação dos riscos sistêmicos de cada ativo na carteira, de acordo com as suas proporções. Veja a figura abaixo:

Viu que o Beta da Carteira (βp) é a combinação linear dos betas de cada um dos ativos? Se você montar uma carteira com Beta final maior do que 1 você está sendo um investidor agressivo, o seu risco seria em tese maior do que o risco Ibovespa.

Resumindo, Sharpe sugeriu que investidores que trabalhassem com carteias amplamente diversificas (do tamanho da diversificação natural do mercado) esquecessem o desvio-padrão como métrica para calcular o risco e migrassem para o tal Beta, que mediria apenas o risco sistêmico de cada um dos ativos. Depois utilizaria as proporções dos ativos na carteira para calcular o Beta final da carteira ou o risco sistemático da carteira.

Por fim, registro que a idéia de Sharpe permitiu criar uma fórmula das mais famosas, o CAPM (Capital Asset Price Method), para encontrar o preço justo dos ativos. É que o cara estabeleceu uma regra entre retorno esperado e risco sistemático (medido pelo beta) dos ativos. Vide figura abaixo:

Então, Sharpe e outros que o sucederam criaram uma fórmula do tipo: me dê o nível de risco sistemático de um ativo, a taxa livre de risco da economia e o retorno da carteira de mercado que eu lhes digo o quanto este ativo deveria render no futuro!

Uma teoria lindíssima completamente alinhada com a teoria anterior, a de Markowitz, mas que enfrenta problemas na prática. Por exemplo, montar carteiras diversificadas ainda é um problema para a maioria dos investidores, pois tem um custo proibitivo devido às taxas de corretagem, emolumentos e outros. Se você não pode trabalhar com carteiras muito diversificadas, melhor ficar só com a teoria de Markowitz e utilizar o desvio-padrão e as correlações para calcular o risco total da carteira. Um outro ponto importante de se ressaltar. Num próximo artigo vamos mostrar algumas limitações para aplicar o beta ou o modelo CAPM para precificação de ativos ou mesmo para descontar fluxos de caixa e avaliar empresas, bem como algumas condições de contorno.

A Teoria do Risco Financeiro – Parte I

sexta-feira, novembro 17th, 2017

Uma das passagens mais bonitas de FINANÇAS é a construção da teoria do risco, iniciada por Harry Markowitz, complementada por William Sharpe e melhorada por muitos outros pesquisadores, como Franco Modigliani, Merton Miller, Fisher Black, Myron Scholes, Robert Merton, Eugene Fama e muitos outros.

Harry Markowitz era um jovem estudante com 25 anos quando publicou o artigo Seleção de Portfolios em 1952, iniciando um importante capítulo nas ciências econômicas, ou ainda refundando a teoria financeira, o que mais tarde, em 1990, valeria um prêmio Nobel. De tão vanguardista, a teoria de Markowitz, constante de sua tese de doutorado, foi apreciada  pelo grande economista Milton Friedman, membro da banca que avaliou o seu trabalho na Universidade de Chicago, não sendo reconhecida como  sendo  uma contribuição para a ciência econômica, mas apenas  um feito matemático.

Atendendo aos pedidos de alunos e amigos,  utilizarei o mínimo de terminologia matemática para explicar a tal teoria do risco. Muito bem, Markowitz introduziu a medida do risco individual como sendo o tal desvio-padrão da série de retornos históricos de um ativo e o retorno esperado como sendo a média dos mesmos retornos. Ou seja, é preciso olhar para trás e observar os retornos passados e a partir daí, com cálculos simples, calcular o tal retorno esperado do ativo e o seu risco individual.  Esses cálculos produzem estimativas dos verdadeiros valores do retorno e do risco futuros. Os cálculos em si são do campo da matemática e estatística, ciências formais, entretanto acreditar que os investidores se importam com essas métricas e as reconhecem como direcionadoras de seus investimentos é tema de finanças, ou seja, constituem premissas da teoria de Markowitz.  Aliás, segundo a teoria do portfolio de Markowitz o investidor é avesso a risco, ou seja, exige mais retorno diante de mais risco. Além disso, o investidor é racional e deseja maximizar o retorno para um certo nível de risco ou minimizar o risco para um certo nível de retorno.

O que significa o fato de um ativo A ter retorno esperado de 20,00% ao ano e risco de 10,00% ao ano? Significa que há 99% de chance de o retorno variar entre o mínimo de -5,7% e 45,76%. Não vamos detalhar este cálculo, mas o leitor deve entender que há fórmulas ou softwares que permitem calcular os intervalos de retornos segundo um padrão de chance. No presente caso, admitimos que o retorno do ativo A segue uma tal distribuição normal de probabilidade, um caso particular da teoria de Markowitz, mas que aqui nos é útil do ponto de vista didático e em nada limita a compreensão da teoria.  Se um ativo B tem retorno esperado de 20,00% ao ano e risco de 20,00%, o intervalo de variação do retorno, com 99% de confiança, é [-31,52%; 71,52%]. Note que o ativo B é muito mais volátil, muito mais arriscado do que o ativo A. Se ao investidor racional só restar escolher entre os dois ativos, ele com certeza escolherá o ativo A que tem menor risco e o mesmo retorno de 20% ao ano.

Para Markowitz se os retornos fossem diferentes bem como os riscos individuais, o investidor, tendo que escolher apenas um dos ativos, escolheria aquele ativo que satisfaz o seu apetite de risco. Ou seja, entre o ativo A [20%; 10%] e um ativo C [25%;15%] a escolha não seria tão simples, já que os ativos tem retornos e riscos distintos entre si, devendo o investidor racional escolher aquele que atender ao seu apetite de risco x retorno. Por exemplo, uma pessoa extremamente arrojada, amante do risco, não teria problema em escolher o ativo C como sendo o seu ativo ideal para investimento. O contrário, bem mais comum na prática, um investidor muito avesso ao risco, escolheria o ativo A por ter menor risco anual.

Mas a grande novidade inserida no famoso artigo de Markowitz, lá em 1952, foi a premissa de que o investidor pode e deve trabalhar com carteiras de ativos em vez de ativos individuais. Isto porque ele ensina que a diversificação de risco obtida com a montagem de carteiras tem vantagens sobre as aplicações individuais. A medida de diversificação é dada pela correlação entre os ativos.  A correlação estatística varia entre -1 e + 1. Se a correlação é igual a -1 os ativos são negativamente correlacionados, tendo os seus retornos comportamentos contrários. Ou seja, enquanto um ativo vai muito bem, o outro vai muito mal, em termos de retorno financeiro. Se a correlação é igual a +1, os ativos são perfeitamente correlacionados, não havendo diversificação de risco entre eles.  Se aumenta o retorno de um, também aumento o retorno do outro na mesma proporção. Se a correlação é igual a zero, os ativos tem retornos independentes entre si, nada tendo a ver com o outro, produzindo bastante diversificação de risco.

Markowitz então matematizou aquilo que já era percebido intuitivamente, que a mistura de ativos trás diversificação do risco tal e qual a colocação  dos ovos em cestas diferentes. A novidade, portanto, foi o modelo para quantificar esta diversificação e os percentuais que o investidor deveria investir em cada um dos ativos constantes de uma carteira, de maneira a se ter um retorno esperado máximo para um certo nível de risco ou um risco mínimo para um dado nível de  retorno.

Voltemos ao mundo dos ativos A [20%;10%] e C[25%;15%] sabendo agora que a correlação entre eles é igual a 0,2 (muito baixa) e que o investidor avaliará as possíveis carteiras de dois ativos passíveis de serem formadas. Segundo a teoria do portfolio é possível combinar os ativos A e C para gerar uma carteira que produz retorno esperado maior do que  20% ao ano e risco menor do que os 10% do ativo A. A saber, se combinarmos 73,58% do ativo A com 26,42% do ativo C, teremos uma carteira com retorno esperado de 21,32% ao ano e risco de 9,03%. Olha a magia da diversificação! Do ponto de vista matemático, tudo isso ocorreu porque o risco da carteira tem uma relação não linear com os riscos individuais. Mas, evitando a explicação matemática, podemos dizer que isso ocorreu porque os ativos são não correlacionados (correlação menor que do que +1). Ou seja, o fato de termos ativos que historicamente tiveram comportamentos diferentes num mesmo momento histórico indica que também se comportarão assim no futuro. Se um for muito mal, com retornos negativos, isto poderá ser compensado pelo fato de que o outro terá um retorno positivo.

De posse da teoria de Markowitz poderíamos calcular um conjunto de pontos onde dado um nível de risco, variando do menor valor possível, 9,03%,  até o máximo valor (15% ao ano),  teríamos a chamada fronteira eficiente de Markowitz.  No gráfico a seguir, o ponto P corresponde à carteira de mínima variância (mínimo risco), resultado da combinação de 73,58% no ativo A e 26,42% no ativo C. O ponto W corresponde ao investimento integral no ativo C, com retorno de 25% ao ano e risco de 15%.

Os pontos R, T e U são pontos de investimentos ineficientes que deveriam ser evitados. Assim, em vez de aplicar na carteira U ou T, o investidor aplicaria na carteira eficiente S, pertencente á fronteira eficiente de Markowitz. O ponto S representa a carteira que produz o máximo retorno para o nível de risco X2 ou a carteira que produz o mínimo risco o nível de retorno Y2.

É possível utilizar um software de otimização não linear tão simples quanto o SOLVER do MS Excel para resolver pequenos problemas de se determinar a fronteira eficiente de uma carteira com até uns cinquenta ativos. Isto na prática é suficiente para garantir uma boa diversificação de risco.

Num próximo artigo apresentaremos a evolução trazida por William Sharpe, um pesquisador também laureado com o prêmio Nobel, que sucedeu Markowitz na pesquisa do risco financeiro e que evoluiu a teoria de Markowitz de risco de carteira para risco sistemático. O seu trabalho não desqualificou o de Markowitz, muito pelo contrário, serviu-se dele para aprimorar a teoria do risco em finanças. Admitindo que seja trivial operar com carteiras amplamente diversificadas que, no limite, reduzem os riscos específicos a quase zero, é possível mudar de métrica, abandonando-se o desvio-padrão da carteira (medida do risco total) para o beta, uma nova métrica que mede o nível de risco sistemático.

Como aumentar o nível de eficiência dos Sistemas Cooperativistas de Crédito?

sexta-feira, julho 21st, 2017

Quem acompanha os meus artigos sabe que venho abordando esta questão da eficiência dos sistemas cooperativistas organizados em nível nacional há algum tempo. O nível de eficiência tropeça num número muito grande de diretorias, seja em entidades de terceiro ou de segundo grau. A divisão entre as diretorias das Confederações e dos Bancos Cooperativos e entre estas e as das muitas Cooperativas Centrais mina, sabota a todo instante os planos estratégicos de evolução dos negócios cooperativistas.

A começar da Sede, onde se encontram a Confederação, o Banco Cooperativo e suas subsidiárias, torna-se praticamente impossível conduzir com eficiência as atividades de apoio aos negócios das singulares, dadas as muitas disputas políticas internas. O passo mais urgente a ser dado seria o de tentar unificar estas diretorias. Assim, uma única diretoria localizada na Sede do Sistema Cooperativista conduziria as ações de apoio ao negócio, da logística à tecnologia, passando pela gestão de riscos.

Isto não significa perda de postos de trabalho para os cooperativistas tradicionais. Os líderes cooperativistas (da gema!) seriam alocados nos Conselhos de Administração e Conselho Fiscal ou em comitês de apoio àqueles e estariam participando periodicamente das decisões e estratégias escolhidas. Mas o importante é que uma única diretoria executiva, povoada por profissionais com forte experiência de mercado, conduzisse os negócios.

Um segundo passo, bastante desafiador para os sistemas cooperativistas organizados em nível nacional, seria o de vincular a nomeação da diretoria da Cooperativa Central à Sede. Da mesma maneira, as Cooperativas Centrais não deixariam de existir e nem perderiam postos de trabalho, mas simplesmente mudariam o seu papel, transformando-se em órgãos táticos a serviço de uma Sede. Assim, as centrais passariam a atuar de maneira mais integrada à estratégia única traçada pela Sede, sem diversionismo. Isto tenderia a aumentar sobremaneira a produtividade, a eficiência dos Sistemas.

Não se pode confundir organização empresarial racional com estrutura de poder. Os Cooperativistas que querem (ou que são eleitos para) comandar, comandariam na Sede, via Conselho de Administração (e seus comitês) um todo muito bem organizado e articulado que, insisto, não perderia tempo com diversionismos. E este todo estaria a serviço das cooperativas singulares. De outra forma, em vez de se eleger vários dirigentes, um em cada uma das posições intermediárias, as Cooperativas Singulares (cooperados) elegeriam algumas pessoas para comandar um todo organizado, que funcionaria de maneira azeitada, eficiente. E isto também é democracia, mas de uma forma mais racional!

Não tenho dúvidas que, feito isso, os Sistemas Cooperativistas organizados em nível nacional voariam baixo rumo a uma participação relevante no Sistema Financeiro Nacional, alcançando o tão almejado papel de moderadores de preços e taxas praticados no mercado, justificando-se perante toda a sociedade.