Archive for the ‘Finanças Corporativas’ Category

Diga-me como é a tua rede e eu direi quem tu és!

sábado, fevereiro 24th, 2018

Eu tenho chamado a atenção para o fato de o contribuinte brasileiro estar financiando uma rede de cooperativas de crédito que não atende as suas necessidades presentes e, a continuar nesse ritmo, não atenderá no futuro. As cooperativas fazem muito pouco crédito e com isso fomentam muito pouco as economias regionais, contrariando os seus próprios princípios cooperativistas. Este artigo volta-se, sobretudo, para os sistemas cooperativistas de crédito, organizados em três níveis, que representam mais de 80% (oitenta por cento) dos negócios do chamado Sistema Nacional de Crédito Cooperativo.

Se você acessar www.blogdocastellano.com.br vai se deparar com um conjunto de artigos onde faço críticas e ofereço sugestões para melhorar a situação atual. De uma maneira geral, resumo aqui o que precisa ser feito: i) melhorar a estrutura organizacional dos sistemas cooperativistas de crédito, reduzindo o número de órgãos e diretorias; ii) alterar a legislação para incentivar a renovação de dirigentes; iii) unificar empresas prestadoras de serviços inter-sistemas cooperativistas de maneira a permitir uma economia de escala e vantagem competitiva; iv) investir em sistemas padronizados de processamento de dados, notadamente para massificar o crédito no ambiente cooperativista; e v) criar um fundo para incentivar a criação de pontos de atendimento em regiões hoje não atendidas.

Para elaborar este artigo passei o período do feriado de carnaval baixando e cruzando dados do Banco Central (Bacen) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para estudar tanto a rede bancária (agências e pontos de atendimento bancário – pab) quanto a rede de cooperativas ou rede do Sistema Nacional Cooperativista de Crédito – SNCC (cooperativas sede e postos de atendimento cooperativo – pac).

Foi um festival de “procv”! (risos). Para quem não conhece o aplicativo Ms-Excel, a “procv” é uma função que permite cruzar planilhas de dados através de um campo comum. Assim cruzei dados de municípios (população) com quantidades de agências, cooperativas sede e seus postos de atendimento.

Vamos então à primeira tabela, a Tabela 1 que apresenta a distribuição dos pontos de atendimento pelos municípios brasileiros.

Note que temos ainda 365 municípios sem qualquer atendimento bancário ou cooperativo. A rede bancária deixa de estar presente em 534 municípios e a rede de cooperativas em 2.884. Note também que dos 1.237 municípios até 5.000 habitantes, a rede bancária deixa de atender 424 e a rede de cooperativas se ausenta em 691. Outro ponto importante, em municípios com mais de 20.000 habitantes os bancos estão sempre presentes, já as cooperativas deixam de atender municípios que também possuem elevada densidade populacional, como é o caso dos 48 municípios de médio porte (população entre 100 e 500 mil habitantes) não atendidos pelas cooperativas.

Na Tabela 2, resumimos algumas estatísticas simples. Por exemplo, 99,oo% da população dos municípios brasileiros são atendidos pela rede bancária. As cooperativas incrementam esse número em apenas 0,29%, atendendo 169 localidades onde os bancos não chegam. Pode-se dizer que a rede de cooperativas não acrescenta muita coisa à rede bancária em termos de topologia. Em outras palavras, o brasileiro não pode contar com as cooperativas para preencher claros deixados pelos bancos, pois elas tendem a ser um subconjunto da rede bancária. E mais, hoje se a rede bancária deixasse de existir as cooperativas deixariam sem atendimento quase metade dos municípios brasileiros.

 

Na Tabela 3 fizemos um trabalho numérico equivalente à comparação visual das formas de duas figuras. Na verdade três. Comparamos a distribuição da população pelos municípios com a distribuição da rede de postos de atendimento dos bancos e com a distribuição da rede de atendimento das cooperativas. Note que na segunda, quarta e sexta colunas temos os percentuais que representam as distribuições dos pontos de atendimento da rede dos bancos, da rede de cooperativas e da população brasileira pelo território nacional.

Nas duas últimas colunas da Tabela 3 listamos números que indicam a distância da rede bancária e da rede de cooperativas, respectivamente, à distribuição da população. Utilizamos a distância quadrática para medir o afastamento das duas redes à distribuição natural da população. Note que a rede bancária ficou com distancia total de 12,96 e a rede de cooperativas alcançou a distância de 39,05.

O que isto significa?

Que a rede de cooperativas está bem mais distante da população em geral do que a rede bancária. Eu venho dizendo isso de outras maneiras, talvez de uma forma mais qualitativa, em outros artigos. Aqui quantificamos a distância do cooperativismo para o povo em geral. Esta distância tem se revelado sobretudo com relação a micro e pequenos empresários que, em países europeus ou norte-americanos, onde o cooperativismo de crédito desenvolveu-se mais, são os principais beneficiários do cooperativismo.

Aqui, em paragens tupiniquins,  nossa rede de cooperativas é dominada pelos grandes produtores rurais e tem se mantido no circuito rico do agronegócio, ou agribusiness, como gostam de dizer. Se não mudarmos esta situação, no futuro, nossa história contará mais algumas páginas de injustiças, descrevendo a transferência de riqueza do contribuinte brasileiro para o setor mais abastado da sociedade.

Mas ainda há tempo de mudar esta história!

A Teoria do Risco Financeiro – Parte I

sexta-feira, novembro 17th, 2017

Uma das passagens mais bonitas de FINANÇAS é a construção da teoria do risco, iniciada por Harry Markowitz, complementada por William Sharpe e melhorada por muitos outros pesquisadores, como Franco Modigliani, Merton Miller, Fisher Black, Myron Scholes, Robert Merton, Eugene Fama e muitos outros.

Harry Markowitz era um jovem estudante com 25 anos quando publicou o artigo Seleção de Portfolios em 1952, iniciando um importante capítulo nas ciências econômicas, ou ainda refundando a teoria financeira, o que mais tarde, em 1990, valeria um prêmio Nobel. De tão vanguardista, a teoria de Markowitz, constante de sua tese de doutorado, foi apreciada  pelo grande economista Milton Friedman, membro da banca que avaliou o seu trabalho na Universidade de Chicago, não sendo reconhecida como  sendo  uma contribuição para a ciência econômica, mas apenas  um feito matemático.

Atendendo aos pedidos de alunos e amigos,  utilizarei o mínimo de terminologia matemática para explicar a tal teoria do risco. Muito bem, Markowitz introduziu a medida do risco individual como sendo o tal desvio-padrão da série de retornos históricos de um ativo e o retorno esperado como sendo a média dos mesmos retornos. Ou seja, é preciso olhar para trás e observar os retornos passados e a partir daí, com cálculos simples, calcular o tal retorno esperado do ativo e o seu risco individual.  Esses cálculos produzem estimativas dos verdadeiros valores do retorno e do risco futuros. Os cálculos em si são do campo da matemática e estatística, ciências formais, entretanto acreditar que os investidores se importam com essas métricas e as reconhecem como direcionadoras de seus investimentos é tema de finanças, ou seja, constituem premissas da teoria de Markowitz.  Aliás, segundo a teoria do portfolio de Markowitz o investidor é avesso a risco, ou seja, exige mais retorno diante de mais risco. Além disso, o investidor é racional e deseja maximizar o retorno para um certo nível de risco ou minimizar o risco para um certo nível de retorno.

O que significa o fato de um ativo A ter retorno esperado de 20,00% ao ano e risco de 10,00% ao ano? Significa que há 99% de chance de o retorno variar entre o mínimo de -5,7% e 45,76%. Não vamos detalhar este cálculo, mas o leitor deve entender que há fórmulas ou softwares que permitem calcular os intervalos de retornos segundo um padrão de chance. No presente caso, admitimos que o retorno do ativo A segue uma tal distribuição normal de probabilidade, um caso particular da teoria de Markowitz, mas que aqui nos é útil do ponto de vista didático e em nada limita a compreensão da teoria.  Se um ativo B tem retorno esperado de 20,00% ao ano e risco de 20,00%, o intervalo de variação do retorno, com 99% de confiança, é [-31,52%; 71,52%]. Note que o ativo B é muito mais volátil, muito mais arriscado do que o ativo A. Se ao investidor racional só restar escolher entre os dois ativos, ele com certeza escolherá o ativo A que tem menor risco e o mesmo retorno de 20% ao ano.

Para Markowitz se os retornos fossem diferentes bem como os riscos individuais, o investidor, tendo que escolher apenas um dos ativos, escolheria aquele ativo que satisfaz o seu apetite de risco. Ou seja, entre o ativo A [20%; 10%] e um ativo C [25%;15%] a escolha não seria tão simples, já que os ativos tem retornos e riscos distintos entre si, devendo o investidor racional escolher aquele que atender ao seu apetite de risco x retorno. Por exemplo, uma pessoa extremamente arrojada, amante do risco, não teria problema em escolher o ativo C como sendo o seu ativo ideal para investimento. O contrário, bem mais comum na prática, um investidor muito avesso ao risco, escolheria o ativo A por ter menor risco anual.

Mas a grande novidade inserida no famoso artigo de Markowitz, lá em 1952, foi a premissa de que o investidor pode e deve trabalhar com carteiras de ativos em vez de ativos individuais. Isto porque ele ensina que a diversificação de risco obtida com a montagem de carteiras tem vantagens sobre as aplicações individuais. A medida de diversificação é dada pela correlação entre os ativos.  A correlação estatística varia entre -1 e + 1. Se a correlação é igual a -1 os ativos são negativamente correlacionados, tendo os seus retornos comportamentos contrários. Ou seja, enquanto um ativo vai muito bem, o outro vai muito mal, em termos de retorno financeiro. Se a correlação é igual a +1, os ativos são perfeitamente correlacionados, não havendo diversificação de risco entre eles.  Se aumenta o retorno de um, também aumento o retorno do outro na mesma proporção. Se a correlação é igual a zero, os ativos tem retornos independentes entre si, nada tendo a ver com o outro, produzindo bastante diversificação de risco.

Markowitz então matematizou aquilo que já era percebido intuitivamente, que a mistura de ativos trás diversificação do risco tal e qual a colocação  dos ovos em cestas diferentes. A novidade, portanto, foi o modelo para quantificar esta diversificação e os percentuais que o investidor deveria investir em cada um dos ativos constantes de uma carteira, de maneira a se ter um retorno esperado máximo para um certo nível de risco ou um risco mínimo para um dado nível de  retorno.

Voltemos ao mundo dos ativos A [20%;10%] e C[25%;15%] sabendo agora que a correlação entre eles é igual a 0,2 (muito baixa) e que o investidor avaliará as possíveis carteiras de dois ativos passíveis de serem formadas. Segundo a teoria do portfolio é possível combinar os ativos A e C para gerar uma carteira que produz retorno esperado maior do que  20% ao ano e risco menor do que os 10% do ativo A. A saber, se combinarmos 73,58% do ativo A com 26,42% do ativo C, teremos uma carteira com retorno esperado de 21,32% ao ano e risco de 9,03%. Olha a magia da diversificação! Do ponto de vista matemático, tudo isso ocorreu porque o risco da carteira tem uma relação não linear com os riscos individuais. Mas, evitando a explicação matemática, podemos dizer que isso ocorreu porque os ativos são não correlacionados (correlação menor que do que +1). Ou seja, o fato de termos ativos que historicamente tiveram comportamentos diferentes num mesmo momento histórico indica que também se comportarão assim no futuro. Se um for muito mal, com retornos negativos, isto poderá ser compensado pelo fato de que o outro terá um retorno positivo.

De posse da teoria de Markowitz poderíamos calcular um conjunto de pontos onde dado um nível de risco, variando do menor valor possível, 9,03%,  até o máximo valor (15% ao ano),  teríamos a chamada fronteira eficiente de Markowitz.  No gráfico a seguir, o ponto P corresponde à carteira de mínima variância (mínimo risco), resultado da combinação de 73,58% no ativo A e 26,42% no ativo C. O ponto W corresponde ao investimento integral no ativo C, com retorno de 25% ao ano e risco de 15%.

Os pontos R, T e U são pontos de investimentos ineficientes que deveriam ser evitados. Assim, em vez de aplicar na carteira U ou T, o investidor aplicaria na carteira eficiente S, pertencente á fronteira eficiente de Markowitz. O ponto S representa a carteira que produz o máximo retorno para o nível de risco X2 ou a carteira que produz o mínimo risco o nível de retorno Y2.

É possível utilizar um software de otimização não linear tão simples quanto o SOLVER do MS Excel para resolver pequenos problemas de se determinar a fronteira eficiente de uma carteira com até uns cinquenta ativos. Isto na prática é suficiente para garantir uma boa diversificação de risco.

Num próximo artigo apresentaremos a evolução trazida por William Sharpe, um pesquisador também laureado com o prêmio Nobel, que sucedeu Markowitz na pesquisa do risco financeiro e que evoluiu a teoria de Markowitz de risco de carteira para risco sistemático. O seu trabalho não desqualificou o de Markowitz, muito pelo contrário, serviu-se dele para aprimorar a teoria do risco em finanças. Admitindo que seja trivial operar com carteiras amplamente diversificadas que, no limite, reduzem os riscos específicos a quase zero, é possível mudar de métrica, abandonando-se o desvio-padrão da carteira (medida do risco total) para o beta, uma nova métrica que mede o nível de risco sistemático.

Estrutura de Capital das Empresas

quarta-feira, abril 26th, 2017

Estava exatamente escrevendo textos sobre finanças quando um amigo de longa data me pediu ajuda para entender o teorema de Modigliani & Miller, sobre estrutura de capital. O enunciado pode ser visto em qualquer lugar que o Google te levar, inclusive na famosa Wikipedia. Modigliani foi agraciado com o Prêmio Nobel em 1985 e Miller em 1990, ao lado de Markowitz e Sharpe.

Antes de enunciar ou demonstrar o objeto do nosso tema, é bom que se diga que pairam inúmeras evidências de que o teorema não se aplica em boa parte dos casos práticos. Sim, é o problema das teorias em ciências sociais, as premissas são muito exigentes e quase sempre não estão satisfeitas no mundo real. Isso, entretanto, não tira a genialidade da dupla Modigliani & Miller em imaginar um mundo teórico (que às vezes acontece na prática, às vezes não) onde há uma certo regramento entre retorno, risco, capital próprio e dívidas nas empresas.

Modigliani & Miller (M&M) disseram o seguinte:

Proposição I: Na ausência de impostos, custos operacionais, custos de transação e custos de agência, não importa a proporção de capital ou dívida, o valor da empresa não se altera.

Vamos, primeiramente, interpretar o que se quis com a proposição I. Imagina que você tenha uma franquia do Macdonalds que atualmente é toda financiada por você, que exige um retorno de 30% ao ano sobre o seu investimento. Surgiu uma oportunidade de tomar recursos emprestado em banco à taxa de 20% ao ano. Você, logo pensa, vou retirar uma porção do meu capital e substituí-la pelo empréstimo bancário que custa menos, assim vou ter uma lucratividade maior e isso vai valorizar o meu negócio. Depois disso vou vender o negócio e vou passear. Segundo M&M, não haverá valorização do seu negócio! Porquê no momento em que você introduzir capital de terceiros introduzirá um novo tipo de risco, o risco financeiro, o risco da alavancagem financeira ou ainda o risco de falência. O futuro pretenso comprador percebendo isso, exigirá uma taxa de retorno maior do que 30% ao ano e isso detonará a sua tese de que o negócio se valorizará. O valor continuará sendo o mesmo. Segundo M&M o valor só depende do fluxo de caixa líquido gerado pelos ativos da sua empresa e não da forma como ele está financiado.

Você pergunta: Ora, mas o fluxo de caixa terá que ser descontado por um custo médio ponderado de capital e quando tiver maior porção de dívida mais barata que o capital, o custo final não será menor? Resposta: Não. Porquê ao mesmo tempo, o custo do capital irá aumentar por perceber dívidas e riscos. No final o custo será constante.

Veja na Tabela I abaixo um exemplo disso:

Tabela I (Ilustração da proposição de M&M num mundo sem impostos)

Note que o fluxo líquido de $ 20 é todo do acionista que investiu $ 100. Ele tem uma taxa de retorno de 20% que é o mínimo esperado para um negócio que tem beta igual a 0,64, num mundo em que o ativo livre de risco rende 11% ao ano e o retorno de mercado é igual a 25% ao ano e o retorno justo do acionista da empresa igual a 20% ao ano,  tudo precificado pelo modelo do CAPM (Capital Asset Price Method) de Sharpe.

Se se considera o fluxo de $ 20 ao ano como uma perpetuidade, temos claramente o valor do capital (que é o próprio valor da empresa) igual a 20/20% = $ 100. Portanto, o capitalista tem o rendimento que merece.

Agora, observe o lado direito da Tabela I. Se você introduz dívidas, a nova estrutura de capital é formada por metade dívida, metade capital. Nesse caso, o fluxo líquido (a perpetuidade) que remunera o capital de $ 50 é de $ 14,50. Vamos descontar este valor pelo custo do capital do acionista desta nova empresa que agora convive com dívidas. Segundo M&M o novo custo de capital, na presença de dívidas, eleva-se a 29%. E como se chegou a este valor. Pela fórmula:

Beta com dívidas = beta sem dívidas + Dívidas/Capital x beta sem dívidas

O beta da empresa sem dívidas é de 0,64 a razão entre dívidas e capital é igual a 1 (50/50) e encontramos um beta com dívidas igual a 1,29. Para este beta, no modelo CAPM, encontramos a taxa justa de retorno de 29% ao ano.

A nova perpetuidade tem valor de 50, idêntico ao capital investido. Portanto, o valor do capital, avaliado a mercado, não muda. E nem muda o valor das dívidas, ficando o valor da empresa (soma dos dois valores) constante, conforme o Teorema I de M&M.

Proposição II de M&M: Na presença de impostos, o valor da empresa com dívidas muda em função do benefício fiscal.

Em outras palavras, quando se introduz as dívidas, o Imposto de Renda é cobrado após a dedução das dívidas, o que gera um benefício fiscal para o acionista. Neste caso, pode-se ver na Tabela II a seguir que o valor da empresa se eleva na proporção do benefício fiscal. No caso, o benefício fiscal é igual ao imposto que se deixa de pagar todo ano em função de os juros da dívida ser lançado antes da apuração do mesmo.

Tabela II

Veja que a rentabilidade do negócio aumentou de 20 para 33,41% e o valor do capital a mercado passou de $ 50 para $ 57,59 e o valor da empresa passou de $ 100 para $ 107,59.

Então, está aí uma breve explicação para um dos momentos mais marcantes da moderna teoria financeira. Para terminar, devemos esclarecer que, na maior parte dos casos reais, no Brasil, a introdução de dívidas pode modificar bastante o valor da empresa, em função de custos de falência e de agência e de subsídios governamentais (financiamentos do BNDES a taxas muito menores do que as de mercado). Imagina, uma empresa pagando 30% ao ano por um financiamento de 20 anos tomado num banco comercial qualquer e outra, do mesmo ramo, tomando a 8% ao ano no BNDES. Isto fará bastante diferença nos valores finais das empresas.

 

Dinheiro público e água benta todo mundo mete a mão!

domingo, novembro 6th, 2016

publico

O título deste artigo é um ditado italiano, mas poderia muito bem ter sido cunhado aqui, em paragens tupiniquins!

O desrespeito do brasileiro para com o dinheiro público manifesta-se de diferentes maneiras: quebra de placas de trânsito, postes de iluminação e outros equipamentos públicos, pichação de monumentos e desvios, muitos desvios de recursos públicos na forma de corrupção. Do dinheiro da merenda escolar à construção das sondas de prospecção de petróleo.

Talvez a mais simbólica forma de desprezo pela coisa pública, que eu tenha visto,  numa época em que ainda não se tinha celular e as companhias telefônicas eram estatais, era a destruição maciça dos chamados orelhões!  Quantas vezes vi, com “meus próprios olhos”, os resultados desta destruição, em várias cidades onde passei e morei. E, claro, por vezes precisei e não consegui usar um orelhão, como deve ter acontecido com muitos brasileiros.

Mas não deixa de ser interessante o paradoxo de o brasileiro querer ser guiado e protegido pelo estado, através dos seus funcionários, órgãos e empresas públicas, preferindo este modelo à iniciativa privada e ao mesmo tempo mostrar-se tão destrutivo e irresponsável em relação à coisa pública. É caso para umas oitocentas teses de doutorado em sociologia, antropologia e psicologia. (rs).

Quem sabe esta crise e a PEC 241 não tragam alguma reflexão sobre o nosso modo de agir e ensejem mudanças no comportamento do brasileiro? A percepção de que o dinheiro público nada mais é do que o nosso dinheiro, recolhido pelo estado sob a forma de impostos/taxas, sendo FINITO, ESCASSO e, portanto,  precisa ser BEM APLICADO sob pena de continuarmos um país grande e subdesenvolvido.

No momento em que as nossas ações cotidianas, simples que sejam, ensejarem respeito pelo dinheiro e pela coisa pública, a consequência imediata é que, do seio desta nova sociedade, brotarão novos políticos e autoridades com o mesmo espírito. E a mudança tão sonhada e esperada se tornará realidade.

Conselho de Administração ou Conselho Administrativo? Do que se trata?

quinta-feira, setembro 22nd, 2016

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Estava ouvindo a Globonews quando ouvi a âncora de um dos programas de notícias informar que fulano, que tinha sido Presidente do Conselho Administrativo da empresa X, tinha se manifestado através de uma carta.

O que é Conselho Administrativo? É o mesmo que Conselho de Administração. As duas expressões estão corretas? Acredito que sim, mas o mais comum é falar Conselho de Administração.

E o que é isso?

Bem, se você é leigo em administração, não tem muito interesse no assunto, eu vou resumir numa única frase:

É um conjunto de pessoas nomeadas para fiscalizar a diretoria da empresa.

Bem, se você quiser saber mais detalhes, continue lendo.

Normalmente, o Conselho de Administração é composto por pessoas experientes, que também já ocuparam cargos executivos nas empresas. Costumam reunir-se uma vez por mês ou quando se fizer necessário para formular e acompanhar o cumprimento da política da empresa.

Então, eles não dirigem a empresa, no seu dia a dia. Esta tarefa fica a cargo da diretoria executiva composta pelo diretor presidente e pelos demais diretores.

Na teoria e na prática há muitas evidências de que os diretores de uma empresa nem sempre agem para satisfazer os proprietários/acionistas. Há conflitos de interesses e, em alguns casos, tanto o presidente quanto os diretores podem agir para se autobeneficiarem. Daí a necessidade de se criar um Conselho de Administração.

O evento mais comum é a própria definição dos salários dos diretores executivos. Melhor que pessoas independentes definam os valores dos salários. Tipicamente, esta é uma função do Conselho de Administração.

Um outro exemplo, o presidente da empresa (da diretoria executiva) informa ao Conselho de Administração que quer comprar um automóvel da marca Ferrari, no valor de R$ 800 mil, para lhe servir enquanto executivo da empresa. O Conselho de Administração pode negar, entendendo que não há tal necessidade e estipular uma política em que os veículos dos executivos da empresa não podem custar mais do que R$ 150 mil.

Os diretores executivos da empresa (aqueles que tocam o dia a dia da empresa) podem participar do Conselho de Administração? Podem, mas não devem. O melhor é que se tenha Conselheiros independentes. Normalmente, o modelo mais utilizado no Brasil é deixar o diretor presidente participar como conselheiro, mas sem assumir a presidência do próprio Conselho de Administração.

No caso de bancos, as normas do Banco Central exigem a figura do Conselho de Administração, mesmo que a empresa não seja uma S.A. com ações negociadas em bolsa. O Banco Central é cuidadoso e exigente no tocante à Governança da empresa.

Governança? O que é isso?

É o conjunto de procedimentos e de pessoas, reunidas em comitês, para resguardar os direitos dos acionistas e de outras partes interessadas na empresa. Podemos dizer que o Conselho de Administração é a principal entidade envolvida na governança da empresa.

 

O que é mais sensível para o lucro dos bancos de médio porte ?

quarta-feira, agosto 17th, 2016

sensibilidade

Montei uma planilha de um banco hipotético que tem as características medianas dos bancos de mercado, em termos de rentabilidade, inadimplência, razão entre receitas de serviços e folha de pagamento, razão entre outras despesas administrativas e a folha de pagamento. Ademais, o tal banco está sujeito às taxas e alíquotas dos diferentes impostos que incidem sobre os negócios.

A taxa de juros média cobrada dos clientes nas operações de crédito é de 3,19% ao mês  e a taxa de captação bem próxima da taxa do cdi, 14,25% ao ano.

O tal banco hipotético tem rentabilidade esperada de 20% ao ano! Fizemos algumas simulações e listamos no quadro acima. A cada rodada reduzimos uma taxa crítica à metade e recalculamos a rentabilidade. Assim, o fator de maior criticidade para o banco em tela são os encargos incidentes sobre a folha de pagamento,  atualmente em torno de 60%.  Se reduzida à metade (por uma eventual e milagrosa renúncia fiscal do governo), e mantida as demais condições, a rentabilidade se elevaria a 33%. Está aí, portanto, a maior sensibilidade do resultado do banco.

A segunda variável mais crítica é a inadimplência que, se reduzida à metade, provocaria uma rentabilidade de 32,80%, disputando com os encargos sobre a folha em grau de importância. E assim por diante, em terceiro lugar, teríamos a alíquota de IR/CS, atualmente em torno de 45%.

Note que o banco não tem controle sobre as alíquotas de impostos e taxas sobre a sua folha de pagamento, tarefa afeta ao governo e  congresso nacional. O que o banco pode controlar com razoável precisão é o volume de empréstimos, de captação, as taxas praticadas tanto no crédito quanto na captação e o número de funcionários! Nem mesmo a inadimplência fica sob pleno controle do banco.

Óbvio, portanto, que quando o banco quer mudar o seu resultado ele prioriza o que está sob o seu controle e o que tem mais sensibilidade no seu lucro: folha de pagamento e taxas praticadas nos negócios!

Gestão do Risco de Liquidez

segunda-feira, agosto 8th, 2016

Nada é mais simples, claro, objetivo, grave do que a questão da liquidez na empresa, seja ela financeira ou não. E por incrível que pareça faltam boas teorias sobre o assunto. Mas prática não falta. Na empresa financeira, deixar uma boa porção da carteira de tesouraria aplicada em títulos públicos federais é medida salutar para enfrentar perdas súbitas de funding, perdas inesperadas na carteira de crédito ou mesmo ações judiciais ou administrativas contingentes. Quanto menor for o porte da empresa financeira maior é a necessidade de ser e parecer líquida.

figura 1

 

Começando hoje, 01 de agosto de 2016, o meu blog. Idéia central: ajudar as pessoas com informação e conhecimento!

segunda-feira, agosto 1st, 2016