Archive for agosto, 2016

A matemática e os princípios cooperativistas!

segunda-feira, agosto 29th, 2016

Há muito se sabe que o ótimo das partes não conduz ao ótimo global! Isso vem da matemática, do campo da otimização, da programação matemática! Tais técnicas desenvolveram-se muito durante as guerras, geralmente para resolver problemas de logística militar, posteriormente espalharam-se por todos os setores civis da economia.

Vamos a um exemplo simples, de uma empresa que fabrica as chapas 1 e 2. No processo de fabricação exigem-se insumos como cobre, zinco e homens/hora. Os recursos são limitados e existem apenas em duas praças, as Praças A e B. Os custos dos insumos são diferentes por praça.  Os preços finais das chapas são diferentes entre si, mas não tem diferenciação por praça.

A pergunta central é

Qual o mix ótimo da empresa? Quantos metros quadrados das chapas 1 e 2 ela deve produzir e quanto deve comprar de insumos de cada praça?

O mix ótimo é aquele que maximiza o lucro econômico da empresa!

Vide figura abaixo:

otimo global

A matemática garante que o ótimo é atingido comprando cobre na praça B e os outros dois insumos, zinco e mão-de-obra,  na praça A, para produzir 300 m2 de cada uma das chapas. O resultado econômico ótimo alcançou a cifra de R$ 3.180,00.

Se alguem quer ser “bonzinho“, “democrático“, pode, açodadamente,  sugerir um mix de produção que compre igualmente nas duas Praças, A e B.  Neste caso, metade do cobre, zinco e mão-de-obra seriam adquiridas na Praça A e a outra metade na Praça B. O resultado econômico cairia para R$ 1.476,00! Menos da metade do resultado ótimo!

Note também que as praças A e B, tem performances distintas na produção dos insumos, inclusive mão-de-obra. Isto ocorre frequentemente na vida real. Determinadas regiões são naturalmente mais produtivas do que outras no que tange à extração ou industrialização de determinados insumos.

Isto ocorre também no Mix de negócios de uma instituição financeira com agencias/unidades espalhadas pelo país. Em algumas é melhor só captar pois há sobra de recursos baratos e em outras é melhor emprestar porque há projetos atrativos do ponto de vista econômico (risco e retorno)! Óbvio que há muitas praças onde as duas atividades são igualmente favoráveis!  A busca pelo resultado ótimo passa por selecionar que praças fornecerão os recursos a taxas mais em conta e em que praças serão aplicados os mesmos, com a melhor relação retorno/risco.

Os dois princípios cooperativistas de crédito, Gestão Democrática e Benefícios à comunidade local, precisam conversar adequadamente com a matemática demonstrada no exemplo da empresa produtora de chapas, sob pena de se remar contra a maré!

Uma interpretação errônea do segundo princípio, como por exemplo, Benefícios à Comunidade significando que toda a captação de recursos locais deve ser emprestada também localmente pode levar a um desastre econômico! Talvez seja melhor que nunca se empreste numa determinada praça ou se empreste um mínimo até que ela tenha de fato projetos atraentes. Mas enquanto isso vai-se otimizando os recursos que ela fornece e retribuindo a ela de outras maneiras que não em operações de crédito!

No que tange ao primeiro princípio notamos que atualmente nos sistemas cooperativistas,  quem tem alguma condição de migrar os recursos e serviços dentre as cooperativas é o banco cooperativo! Então, o controle do banco cooperativo tem o condão de otimizar ou não o mix  global de um sistema cooperativista de crédito. E ficam no ar as seguintes questões:  o controle do banco cooperativo por parte de algumas centrais apenas e não de todas é democrático? Atende ao primeiro princípio citado aqui neste post? Em sendo controlado apenas por algumas centrais, tende o banco a produzir o ótimo global?

Esta é uma questão ainda em aberto para mim e pretendo discutí-la aqui com os leitores. Se você puder opinar será muito bom!

=============================================

 observação:

o problema da fábrica de chapas foi resolvido com a ferramenta Solver, add in para o MS-Excel. Os mais aficcionados por matemática já me perguntaram se o tal aplicativo resolve problemas de qualquer tamanho. A resposta é não! O Solver do excel é um aperitivo, quase uma versão demo do Solver Profissional, desenvolvido pelo mesmo fornecedor da Microsoft! Há outros aplicativos de otimização, como o Lindo e o SAS.

Sistema de Garantias Recíprocas. Um modelo ainda carente de aperfeiçoamento pelo Banco Central

segunda-feira, agosto 29th, 2016

solidariedade

Num post anterior falávamos da insuficiência da normatização atual sobre Centralização Financeira (CF) de cooperativas de crédito. Eis que em seguida me lembrei de um outro assunto nevrálgico para os sistemas cooperativos e que, também, encontra-se em região de penumbra normativa! O tal sistema de garantias recíprocas, encontrava-se detalhado na Resolução Bacen 4.020, de 29/09/2011,  substituída por aquela que é a bíblia normatizadora do funcionamento dos sistemas cooperativistas, a Resolução 4.434, de 05/08/2015, também da lavra do Banco Central.

Eis que o Bacen levou ipsis literis o texto contido na 4.020 para a 4.434. O que já era incompleto em 2011 continua incompleto até os dias atuais! E do que se trata? Trata-se de algo essencial para os sistemas cooperativos, um mecanismo de solidariedade, onde, em tese, ao que parece, o normatizador quis passar a idéia de que, uma vez implementado tal mecanismo em nível de sistema regional (cooperativa central e sua filiadas), cada cooperativa ficaria garantida pelas outras!

Entretanto, há lacunas na norma e não se pode dizer com convicção que uma vez adotado o sistema de garantias recíprocas, o mecanismo de solidariedade plena estaria garantido. Quando se lê o trecho correspondente na Resolução 4.434, Capítulo VI, começando no artigo 23, vê-se claramente que o Bacen permitiu aumentar o poder de emprestar das cooperativas centrais adeptas do tal sistema de garantias! Entretanto, não fica claro se todas as operações tomadas pelas singulares ou mesmo se todo e qualquer problema acontecido com as cooperativas singulares, mesmo que não tenha origem numa ou mais operações de crédito, estaria abrangido por esta regra!

Fica muito claro o direito de a cooperativa central emprestar mais para qualquer uma de suas singulares, algumas cláusulas sugeridas que deveriam figurar em operações de credito realizadas pelas singulares, mas mesmo aqui, não fica claro se estas tais cláusulas seriam aplicadas indiscriminadamente ou somente nas operações de repasse de crédito rural.

Portanto, mais uma vez, a despeito da enorme liquidez hoje existente nos sistemas cooperativos de crédito, situação que sugere segurança aos cooperados, há que se voltar ao tema e esgotá-lo para permitir o avanço tranquilo dos negócios cooperativistas!

Centralização Financeira nos Sistemas Cooperativos de Crédito – Um desafio normativo para o Banco Central!

sábado, agosto 27th, 2016

Cooperativas-de-crédito-já-são-o-6º-maior-banco-do-país-21

No interior de Minas Gerais costumam dizer:

“Inquanto tatudubem, tatudubão!”

A Centralização Financeira (CF) funciona bem? Muito bem, obrigado! Qual o problema, então? Eu explico, vamos passo a passo, para ficar tudo muito claro!

Imagina se você entrega os seus recursos para o seu primo sabido investir e ele retorna a seguinte informação:

Primo, apliquei o seu dinheiro numa tal centralização financeira cujo retorno certinho a gente só sabe ao final, porque depende de alguns rateios! É que nós aplicamos juntamente com outras pessoas e esses recursos vão para uma central que faz um conjunto de aplicações. Somente ao final é que vamos saber o retorno!

Você dirá imediatamente para o seu primo sabido: Primo, achei que você fosse aplicar numa LCA ou num CDB com prazo, carência e retorno conhecidos,   tudo muito bem individualizado!

Hoje as cooperativas singulares vinculadas a sistemas nacionais aplicam os seus recursos que sobram no caixa na sua cooperativa central. Estas por sua vez reaplicam a maior parte desses recursos nos seus bancos cooperativos.  No segundo  trecho, da  central para o banco cooperativo, as aplicações são individualizadas na forma de títulos como CDI, CDB ou Operações compromissadas com títulos públicos federais. Entretanto, no primeiro trecho, da singular para a central, tudo é aplicado numa cesta chamada Centralização Financeira (CF) e os recursos de cada singular não ficam individualizados!

Então, uma singular tem a expectativa de que seus recursos sejam remunerados pela central, mas não sabe ex-antes, com precisão, a taxa de retorno. Não estamos falando de incertezas causadas pela volatilidade de taxas flutuantes no mercado, como SELIC e CDI.  Não! Estamos falando que uma central terá que fazer alguns cálculos de proporções para informar qual a receita de juros que caberá a cada cooperativa singular, já que os recursos de todas elas foram aplicados conjuntamente em vários títulos com diferentes prazos e taxas!

E de novo você deve estar se perguntando:  qual o problema ?

O problema é se houver uma grande querela, judicial ou não, entre a central e uma ou mais singulares, haverá uma certa dificuldade em separar os recursos e os juros esperados das aplicações de cada singular! Tudo porque falta uma padronização e/ou individualização do instrumento CF e num momento assim tudo pode ser questionado! Portanto, há um certo grau de incerteza jurídica sobre este assunto!

Sabe-se que o Banco Central estuda este tema há um bom tempo! Tenho a convicção de que a comunidade cooperativista de crédito ganhará quando este assunto avançar! Entretanto, é bom ressaltar que há tempo para melhorar tudo isso, pois atualmente os sistemas cooperativistas são muito líquidos e, portanto, seguros!

Além da questão jurídica, há que se notar que as tais sobras de caixa deveriam ter um percentual mínimo destinado a títulos de extrema liquidez (títulos públicos federais) e, atualmente, a norma nada diz sobre isso. É comum misturar-se todas as aplicações que uma cooperativa central faz e chamá-las também de centralização financeira.

Talvez o Bacen avance indicando que a centralização (um percentual mínimo das sobras de caixa das singulares) só pode ser aplicada em títulos públicos federais. O que exceder a isso é aplicado livremente pelas cooperativas, preferencialmente no seu banco cooperativo, mas com um rótulo claro de que não se tratam de aplicações de liquidez, mas aplicações especulativas!

Desta maneira, os bancos cooperativos e todas as demais entidades saberão que tem um conjunto de aplicações de baixíssimo risco, destinado ao provimento de liquidez para todo o sistema, do qual não se pode exigir rentabilidades superiores ou exageradas! O que não tiver este rótulo (de centralização!) pode ser aplicada a taxas negociadas com o banco cooperativo dentro de um espectro de risco e retorno!

Isto contribuirá para um regramento ainda mais claro da medida de liquidez das cooperativas singulares e centrais bem como para uma indução aos negócios de crédito e não de tesouraria! Há cooperativas hoje que mereceriam o nome cooperativas de tesouraria e não cooperativa de crédito, pois vivem de aplicações da centralização financeira! Lembrando sempre, que os sistemas cooperativos precisam estar preparados para enfrentar um aumento na alavancagem de sua carteira de crédito, com sistemas informatizados que permitam uma análise segura e rápida dos tomadores e das operações!

O que é mesmo Conflito de Interesses?

quinta-feira, agosto 25th, 2016

REUNIAO-DE-DIRETORIA1-960x400

Recebi alguns emails dizendo que escrevo de forma hermética e que o assunto citado à epígrafe não estava claro. Resolvi, então, criar um exemplo rasteiro e hipotético com a minha própria pessoa no personagem principal (risos) para demonstrar o chamado Conflito de Interesses.

Suponha que eu, Murilo, esteja numa cidade do interior de Minas Gerais trabalhando com terraplanagem e prestando serviços aos produtores de arroz de Miraí, minha cidade natal, linda e com formato de coração!

Eis que estando filiado a uma cooperativa singular de crédito, pertencente a um grande sistema cooperativista nacional, concorra e ganhe um cargo de direção na cooperativa. Como sou falante, bonito, alto e simpático, pimba, fui eleito! A partir daí naturalmente passa a me atrair cada vez mais a idéia de conceder empréstimos aos arrozeiros. Se eles crescem, eu também cresço já que sou o seu fornecedor de serviços de terraplanagem! De repente, descubro que tem algumas normas, como por exemplo, um tal limite de diversificação que limita o endividamento de cada arrozeiro a 15% (quinze por cento) do patrimônio da cooperativa onde sou executivo. Achei o tal limite muito pequeno,  mas não estava na minha alçada contorná-lo, estando o assunto a cargo  do Conselho de Administração (CA) da singular!

Como ainda continuava falante,  bonito, animado e popular, concorri a um cargo na cooperativa central de meu sistema e fui eleito. Agora, sou diretor de uma cooperativa central e descobri que ela tem mais bala na agulha para emprestar do que a minha singular de origem. Ela pode repassar um empréstimo para a singular emprestar para o arrozeiro amigo! E como a minha cooperativa central adota o regime de garantias recíprocas ela pode emprestar uma fortuna!

Muito bem, resolvo fazer o repasse à cooperativa para que um amigo lá instalado na diretoria faça chegar o empréstimo ao meu amigo arrozeiro,  que contrata sempre as minhas máquinas! O problema continua! O limite para empréstimos na cooperativa a um único tomador mantém-se nos 15% do Patrimonio da cooperativa singular! Penso comigo, só se pudesse dividir o empréstimo entre o arrozeiro e seus filhos! Mas o CA me informa que o limite de diversificação citado vale para grupos econômicos e a família do arrozeiro constitui um desses.

A luta continua! Sendo muito legal, consigo chegar a Conselheiro da Confederação! Percebo logo que é um local de Política Cooperativista! Noto que os caras aqui são brother, não ficam com aquele mimimi de normas, processos e regras! Eu acho que o lema dos caras aqui é “o negócio em primeiro lugar” (risos). Cara, são pessoas simples, normais como eu que ocupam as diretorias e os conselhos de governança! Estando na Confederação eu descubro que ela não faz empréstimos,  mas controla um banco, o Banco Cooperativo. Noto que o Presidente da Confederação, com quem conversei em dois eventos e já me sinto próximo,  também é Presidente do Conselho de Administração do Banco e isso me encoraja a tentar alguma coisa no Banco!

Decido então “atacar” o Presidente do Banco e penso numa abordagem legal! Ah! Vou falar das eleições na diretoria do banco que ocorrerão em março do ano que vem, isso deve impressionar e mostrar poder!  Os caras que frequentam a Confederação são os mesmos que vão se sentar no Conselho de Administração do Banco!  E no comando de tudo está o meu novo conhecido, Presidente da confederação e Presidente do CA do Banco! Penso, este homem deve fazer chover, ocupando tantos cargos ao mesmo tempo!

Resolvo jogar um agá, como se diz na gíria, e digo para o Presidente do Banco: olha, as eleições serão em março do ano que vem? Certo? Nós estamos aqui para te apoiar no que for preciso para que continue trabalhando do mesmo jeito, de forma eficiente! Mas me diga, qual o máximo valor que vocês poderiam emprestar diretamente para um arrozeiro lá de Miraí ? A resposta vem: vinte vezes mais do que a sua cooperativa singular de origem poderia emprestar! Entretanto, tudo tem que ser objeto de análise de risco e receber o aval formal da cooperativa singular.  Esta é uma decisão técnica, para que haja compromisso local com avaliações de qualidade e apreço pela boa técnica bancária! Penso comigo, dancei! Esse negócio não vai prosperar!

Veja que eu fui cultivando a esperança de emprestar exclusivamente segundo o meu próprio interesse, mas fui contido pelas normas e pela estrutura organizacional que garantem a segregação nas decisões!  Neste caso, também, o malfeito foi contido pela honestidade do Presidente do Banco e de todas as pessoas que atuaram nesta história, exceto eu, cujas ações aqui descritas foram pautadas pelo meu interesse pessoal, contrariando o interesse da maioria! Mais uma vez, TUDO HIPOTÉTICO só para esclarecer didaticamente o tal Conflito de Interesses!

Mas não se pode, obviamente, confiar apenas no caráter individual das pessoas, pois as empresas crescem e muitos dirigentes entram e saem. Por isso o regramento e as estruturas segregadas são importantes!

Endomarketing de Tecnologia no ambito dos Sistemas Cooperativistas de Crédito!

quarta-feira, agosto 24th, 2016

Mainframe

Os sistemas cooperativistas de crédito, repletos de verbas e subsídios governamentais, disputam entre si a hegemonia e a preponderância no mercado cooperativista. Trata-se daquela caminhada, descrita em outros posts, em que espera-se que tenham uma maior participação no Sistema Financeiro Nacional (SFN) para exercerem uma espécie de poder moderador sobre taxas e preços no sistema bancário, induzindo sua redução.  Não há, por óbvio, neste estágio, concorrência com os gigantes do mercado, os cinco maiores bancos que respondem por mais de 80% dos negócios do Sistema Financeiro Nacional!

Nesta competição setorial, no chamado peer group, os sistemas usam o que consideram que tem de melhor. Alguns deles divulgam feitos e premiações na área de tecnologia com o objetivo de disseminar a idéia de suficiência e até mesmo de condição de sobrevivência das cooperativas num mercado cada vez mais competitivo!

Isso está correto? O melhor é desenvolver os sistemas com eficiência! Entretanto, a meu ver,  tais ações são utilizadas para “blindar” a tecnologia dos problemas decorrentes das deficiências nas estruturas organizacionais das entidades de segundo e terceiro graus.  O melhor é fazer uma reforma juntando diretorias na Sede e reorganizando as centrais. De maneira que a sede passe a ser a grande coordenadora das estruturas de apoio aos negócios das singulares.  Isto trará uma incrível racionalidade aos sistemas organizados em nível nacional e não ferirá nenhum princípio do cooperativismo! Note que a Diretoria única na Sede não será a condutora das singulares mas sim a coordenadora de todos os recursos de apoio aos negócios!

Em outros artigos já realçamos a importância dos investimentos em tecnologia como condição de se incrementar de forma eficiente os negócios nas cooperativas de crédito, sem que se tenha que aumentar a folha de pagamento e/ou gerar crises devido a inadimplências decorrentes de crescimentos atabalhoados na carteira de crédito! A reorganização citada combinada com novos investimentos em tecnologia faria o cooperativismo de crédito “voar” rumo à desejada participação de 10% no SFN.

Voltando ao endomarketing de tecnologia, há que se ter cuidado na divulgação de informações do gênero para não incorrer no erro da propaganda enganosa! De novo,  o maior feito de uma boa tecnologia é a eficácia de seus sistemas e o reconhecimento por parte dos usuários! Isto só ocorrerá na medida em que novos investimentos forem se materializando.

Mensurando o Risco de Crédito em nível de Carteira

quarta-feira, agosto 24th, 2016

Var

Muito se conhece sobre a análise individual de tomadores de crédito, mas as ferramentas que permitem uma avaliação do risco de crédito em nível de carteira ainda são pouco utilizadas pelas instituições financeiras. Pelo menos de forma explícita, já que é improvável que os bancos não conheçam ou  tomem vantagem, de alguma maneira, da diversificação do risco de crédito subjacente às grandes carteiras!

O fato é que em sendo as perdas de crédito variáveis aleatórias e não correlacionadas entre si, quando se consideram tomadores de diferentes setores econômicos, a perda global da carteira fica fortemente reduzida pelo efeito da diversificação de risco, medida pelo efeito das correlações. Em 1950, Harry Markowitz já explicava em seu lendário artigo,  Portfólio Selection,  uma maneira de calcular o efeito da diversificação sobre o risco bem como para calcular a chamada fronteira eficiente de risco, lugar onde dever-se-ia escolher as carteiras com as proporções ótimas dos ativos. Óbvio que em meados do século vinte já se percebia o efeito benéfico da diversificação (com frases históricas como não coloque todos os ovos na mesma cesta), mas foi Markowitz quem apresentou um método de fácil aplicação para o cálculo exato do risco diversificado ou risco de carteira! Isto valeu, muito tempo depois, um prêmio Nobel a Markowitz!

Na tabela abaixo apresentamos um problema simples de carteira de crédito de tomadores divididos em três setores econômicos.

alex_diversif

(clique com o mouse para aumentar a tabela)

Note que o fato de não existir uma correlação perfeita (igual a UM) entre os setores econômicos, há a tal diversificação de risco! Quando ela é considerada a perda máxima em jogo cai de 99 para 68 milhões! Note também que a rentabilidade medida diante do risco, seria de 22,02% e não de 15,15%.

Pela teoria das carteiras seria possível dosar os volumes financeiros aplicados em cada setor de maneira a se conseguir o mesmo retorno com menos risco! Não vamos apresentar aqui detalhes dos cálculos, por acreditarmos que isto seja enfadonho para a maioria dos leitores. Entretanto, isto pode ser feito com uma simples planilha, em exemplos didáticos como este, e precisaria de um software poderoso para gerenciar grandes carteiras de crédito.

Para além da mensuração, o mais interessante nesta questão de carteiras de crédito seria a gestão do risco em nível de portifólio, coisa que pode ser feito com a ajuda de softwares especializados, sem grandes esforços! Voltaremos a este assunto diversas vezes neste blog.

Transparência em atos e atas!

terça-feira, agosto 23rd, 2016

Reunião

É grande a responsabilidade pelo registro de atas em reuniões de diretoria e de conselhos que compõem a governança corporativa da empresa. Tão importante quanto os atos! Se os atos garantem o tempestivo disclosure, as atas traduzem a qualidade da informação! Tudo para resguardar os direitos de acionistas, cotistas e/ou cooperados! As atas devem ser registros fidedignos de momentos tão importantes.

Deve-se preservar na ata os registros contrários e/ou individualizados de cada um dos participantes, com vistas a deixar claro os importantes debates travados. A síntese absoluta prejudica o entendimento do ocorrido, deixando as decisões registradas sem um  contexto necessário para o bom entendimento.

Tratando igualmente os iguais e de forma diferente os desiguais!

segunda-feira, agosto 22nd, 2016

bacen

Eis que as normas atuais sobre gestão de riscos editadas pelo  Banco Central (Bacen) e Conselho Monetário Nacional (CMN)  procuram tratar de maneira diferente os desiguais! Se uma cooperativa não se encontra filiada a um sistema regional ou nacional, dela se exige mais, ponderando as dificuldades e riscos que a mesma se sujeita ao trabalhar isoladamente, sem as vantagens que um sistema regional ou nacional confere a suas filiadas.

O que não pode acontecer é que dois iguais sejam tratados de forma diferente! Se um dos sistemas deixar de adotar as normas de gestão do risco de crédito, por exemplo aquelas contidas na Resolução 3.721/09, onde se propõe o uso de um processo metódico de avaliação do risco de crédito, medição de perdas, adoção de políticas institucionais e clara responsabilização, levará uma injusta vantagem sobre o outro. Pelo menos no curto prazo!

Eu explico! O sistema menos regulado, crescerá mais num primeiro momento, por estar livre de “amarras” normativas, mas acrescentará um risco crescente que poderá destruir a aparente vantagem inicial.  É a tradicional disputa entre visões de curto e de longo prazo.

Ainda bem que temos um Bacen atuante e justo! E os cooperados contam com isso!

 

 

 

O papel das estruturas organizacionais: gestão eficiente e responsabilização!

segunda-feira, agosto 22nd, 2016

                                                       size_810_16_9_terremoto-taiwan

Caiu o prédio!

Seguem-se as falas abaixo:

Engenheiro responsável pela obra:  Morreram apenas dois operários que vigiavam a obra, pois o incidente deu-se à noite.

Engenheiro da Prefeitura: Sou o responsável pela fiscalização! Viemos várias vezes aqui no canteiro, tudo parecia ir bem!

Um promitente comprador de apartamento: Temos que apurar as responsabilidades!

Engenheiro responsável pelo projeto técnico e cálculos: Calculamos tudo conforme as normas!

Engenheiro do CREA (Conselho Regional de Engenharia): Todos pagavam em dia as prestações!

Um cidadão comum que passava pelo local: Tudo isso poderia ter sido evitado!

Auditoria Independente Contratada:

Montamos dois grupos de engenheiros auditores. Um visitou o projeto técnico e os cálculos! Outro fez levantamentos in loco na obra, avaliando fragmentos de vigas, pilares e lajes dentre os destroços! Chegaram à conclusão que o Projeto Técnico, de fato, estava conforme as normas! No que tange à execução da obra, houve falha na concretagem de pilares, utilizando-se ferros diferentes dos especificados e concreto mal traçado!

Criamos este pequeno exemplo para chamar a atenção sobre o papel dos diferentes agentes antes, durante e depois de uma crise! E elas existem! São como as bruxas!

////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Em instituições financeiras podem até não cair prédios, mas os computadores centrais param de funcionar por dias, perdem-se fortunas com a inadimplência em carteiras de crédito, equipamentos periféricos de informática estragam, cartões de crédito de clientes são fraudados e assim por diante, existem eventos de risco, alguns mais severos do que outros e cada um com uma frequência histórica peculiar.

As estruturas organizacionais cumprem um papel decisivo antes, durante e depois das crises! Depois das crises, uma auditoria independente permite apurar os fatos e responsabilizar a quem de direito, colecionando informações para evitar novos casos da espécie.  E como anotado pelo cidadão comum, certamente o mais importante é o trabalho de prevenção, pois sempre custará menos do que a tragédia! Mas, sabidamente, o fato de existir responsabilização induzirá fortemente as ações preventivas!

Voltaremos a este assunto em outras publicações, notadamente para realçar a segregação de funções entre membros da diretoria executiva e membros dos Conselhos de Administração e Fiscal, e a sua correlação direta com a prevenção contra crises!

Uma análise técnica e histórica das carteiras de crédito rural

segunda-feira, agosto 22nd, 2016

                                                      farmer-880567_960_720

Em 1995 o maior banco do país, o Banco do Brasil (BB), informou ao grande público que tinha um rombo de R$ 8 bilhões devido a problemas no crédito rural. Na verdade, em 2001, quando do programa PFIFF (Programa de Fortalecimento das Instituições Financeiras Federais), refez-se esta contabilidade e reconheceu mais R$ 12 bilhões, indicando que o problema em 1995 era maior do que o informado. Eram esqueletos no balanço do banco. Tais esqueletos se formaram ao longo de muitos anos, quem sabe vinte ou trinta, dado que as operações de crédito tinham o seu vencimento prorrogado continuamente, direta ou indiretamente. Quando digo indiretamente quero dizer que uma nova operação pode ser feita para liquidar uma anterior, sem que o devedor pague alguma coisa ou mesmo tenha a sua situação econômico-financeira analisada corretamente.

Este atraso no reconhecimento de um problema é típico do ser humano! É conhecido como o mal do jogador, onde os jogadores teimam em reconhecer a perda e continuam as apostas na tentativa de revertê-la, mas acabam por arriscar ainda mais, aumentando o tamanho do prejuízo que só será revelado num período de tempo seguinte!

Alguém poderia dizer: Murilo, mas o sucesso da atividade agropecuária para o pais é algo inquestionável!  Ela representa 30% (trinta por cento) do PIB e contribui de forma fantástica para a formação de reservas internacionais, dado o volume de exportações! O fato de ser um sucesso não exclui a necessidade de aperfeiçoamento continuo!  É preciso analisar o custo deste modus operandis que o estado brasileiro escolheu para fomentar a agropecuária. O custo do BB e outros que não citei aqui ficaram com o governo e, por conseguinte, com o contribuinte brasileiro. Se fatos assim se repetirem, há que se considerar outras formas de financiar a agropecuária brasileira, não necessariamente eliminando esta forma tradicional, mas disciplinando-a ainda mais!  Lembro aquela frase já citada em outros posts, de um presidente de um grande banco brasileiro: a sua maior qualidade, com o tempo, se não cuidar, vira o seu principal defeito!

Se antes já era difícil fiscalizar a correta aplicação dos recursos de crédito rural, imagina hoje em dia, quando as lavouras e a criação de bovinos expandiram-se fortemente pelo país afora! É preciso recorrer a tecnologias de fotografias por satélite para avaliações rápidas e de menor custo!

Para não voltar muito no tempo, lembro-me de uma situação pitoresca, ocorrida em  93, quando um certo bispo católico numa certa cidade da Bahia, onde o BB despejou crédito rural a rodo, por ser esta uma nova fronteira agrícola, dizer:

Murijo, aqui  fazendeiras beneficiadas pelas empréstimas do BB comprar cabina dupla,  barca, lancha, mota….vocês precisa financiar pobrezinhos”

Era um senhor de uns 60 anos, holandês recém chegado ao país, que falava um português arrastado com sotaque alemão e que tinha se aliado aos grupos campesinos de esquerda! E neste ponto, não é que ele estava quase certo! Estava se jogando dinheiro fora! Dinheiro do contribuinte! Discordamos no ponto em que ele dizia que se deve financiar pobre. Deve-se financiar quem produz e é produtivo, eficiente.  Aos pobres, programas sociais com exigência de reciprocidade! Essa é a única regra que trará benefícios para todos.

Não tenho dúvidas que mesmo nos dias atuais há fraudes no crédito rural. Falsos produtores ainda tomam recursos subsidiados (enquanto a taxa de juros básica está em 14,25% ao ano, há recursos que custam menos de 4% ao ano e há aí uma arbitragem por parte de alguns poucos!) e não produzem absolutamente nada no campo. Acredito também que este percentual seja muito menor do que os de 1993 que o bispo, a olho nú, percebia e espantava-se!

Mas se o país vive uma crise de ineficiência nas suas obras, com sobre-custos,  erros de planejamento e erros de execução, sem falar na corrupção, há que se aprimorar também o processo de financiamento da atividade rural.

Esta questão afeta sobremaneira os sistemas cooperativistas de crédito, repletos de subsídios e verbas públicas, já que os mesmos tem origem nas cooperativas de produção rural e as suas carteiras de crédito rural representam percentual significativo dos seus ativos. O que fazer? É preciso gerir o risco de crédito e operacional associados ao crédito rural.   Preferencialmente por meio de sistemas informatizados, já que em termos de topologia, os sistemas cooperativos em tudo se assemelham ao BB, espalhando as suas atividades e financiamentos pelo Brasilzão afora!

Um bom sistema de análise do produtor rural, onde se avalia a sua capacidade administrativa, o seu caráter e sobretudo a sua capacidade econômico-financeira, atribuindo-lhe limites máximos para a tomada de crédito minimizariam o problema da rolagem crônica das operações de crédito, aquele mesmo que afetou o BB nos idos dos anos 90. Em outras palavras, como o estado brasileiro escolheu financiar continuamente o capital de giro dos produtores rurais, caberia aos analistas de crédito e suas metodologias informatizadas, avaliar aqueles que já estão em estado crítico e que não mereçam mais a regalia! Nos casos críticos, o tratamento seria outro, sem novos aportes de recursos, mas tratando tais casos como de recuperação de créditos!

Na prática, a meu ver, não precisa alterar sobremaneira o modus operandis atual, apenas dotá-lo de mecanismos de gestão de riscos!