Archive for outubro, 2016

Eureka! Dá-me um apoio e eu moverei o mundo!

sábado, outubro 22nd, 2016

imageO bom e velho matemático da antiguidade, Arquimedes de Siracusa, que viveu de 287 a 212 AC, não brincava em serviço. Movia muitas coisas e acreditava poder mover o mundo  se lhe dessem a ferramenta apropriada.

Já escrevemos sobre avaliação de carteiras de crédito destacando a necessidade de se ter sistemas especializados que apoiem a atividade de apreciação de perdas esperadas e inesperadas na carteira de crédito. Não é preciso utilizar modelos sofisticados (como Credit Risk + ou Credimetrics) para ter uma avaliação do risco final da carteira e a partir daí precificar corretamente os créditos e estabelecer uma política que limite as eventuais perdas a percentuais aceitáveis pela organização.

Veja a matriz de migração abaixo:

matriz-de-migracao

Esta matriz pode ser gerada pelos tais sistemas especializados e organizadas por safras. O que é isso? Vamos imaginar que você fixe algumas operações que foram originadas há um ano atrás e a partir daí você acompanhe os seus ratings de crédito por um ano inteiro. Aqui, neste exemplo didático, escolhemos o período de um ano. Poderia ser outro período se o analista entendesse que as operações são de longo prazo.

Note que na coluna inicial tem-se os ratings de partida das operações e na linha horizontal tem os ratings finais. Adotamos aqui a escala da Resolução 2.682 e os percentuais a elas associados para o provisionamento, ou seja, de AA (0%), A (0,5%), B (1%) até H(100%). Aqui, mantivemos todas as operações de partida no cômputo de migração, inclusive eventuais operações transferidas para prejuízo são tratadas como estando classificadas no rating H.

Por simples inspeção da matriz nota-se que os ratings mudam ao longo do tempo, ou em outras palavras, há erros de previsão na metodologia.

No cômputo geral esta carteira foi inicialmente provisionada a uma taxa global de 6,95% mas terminou por exigir um provisionamento de 15,89%, Fica óbvio que há erros e oportunidades para aperfeiçoamento da metodologia de escoragem que ancorou a atribuição dos ratings inciais para as operações. Talvez elas não tenham capturado corretamente as verdadeiras características dos tomadores, talvez estejam defasadas, enfim, o resultado da matriz de migração é insumo para muito trabalho de aperfeiçoamento.

Outro aspecto que poderia ser trabalhado a partir da matriz de migração seria a avaliação do capital econômico requerido para enfrentar perdas inesperadas e, claro, comparado com o capital regulamentar exigido.

Note que uma primeira avaliação do capital econômico requerido indica uma necessidade de capital da ordem de 8,94% da carteira total, para suportar as mudanças nos ratings ao longo do tempo. Este volume de capital é compatível com a exigência das Regras de Basileia! Mesmo que a provisão venha a aumentar subitamente, o banco teria capital próprio para suportar o baque.

Esta análise de capital econômico para fazer frente a perdas inesperadas poderia ser aperfeiçoada, tornando-se mais sofisticada, mais probabilística na linguagem da modelagem! O analista poderia apurar estas matrizes de migração a cada final de mês. A partir daí haveria uma série histórica de avaliações de provisões da carteira frente a ratings originais atribuídos no nascedouro das operações. A partir do momento em que completasse um número razoável de observações (digamos, 6 para começar) o analista tomaria alguns percentis desta série como medida de perda máxima.

Um outro incremento possível seria considerar o efeito das recuperações de crédito na matriz de migração de ratings.

Este tipo de análise coloca a instituição financeira na vanguarda da gestão de riscos.

Salve, salve o nosso Banco Central!

segunda-feira, outubro 17th, 2016

bacen

Temos fama de agir e sentir como se fôssemos  cachorros vira-latas! Acostumamos a admirar as coisas feitas pelos estrangeiros, notadamente pelos norte-americanos e europeus, depreciando as nossas. É óbvio que eles estão na nossa frente em muitos quesitos da economia, na indústria de ponta que emprega alta tecnologia, na indústria do entretenimento,  mas se tem um setor do qual podemos nos orgulhar é o setor financeiro e da condução imposta pelo Xerifão deste setor, o nosso Banco Central, nos últimos 30 anos.

Um setor historicamente associado a grandes crises econômicas que afetaram a sociedade, em nível mundial, no Brasil vem sendo conduzido de forma exemplar pelo Banco Central, com pouquíssima externalidade negativa.

Cito como exemplo, apenas um dentre muitos feitos, a tal Resolução 2.682 de 1999. Sabidamente, os balanços de bancos podem ser manipulados para apresentarem falsos lucros durante muito tempo, sem que se descubra, a não ser que se façam auditorias trabalhosas, inclusive com investigação in loco da situação econômico-financeira do devedor. Eis que o nosso Banco Central, de forma pioneira, criou um mecanismo de classificação de risco das operações e uma base de dados pública, onde todas as instituições financeiras podem consultar o status das operações, sem contudo enxergar o banco responsável pelas mesmas. Embora um banco não possa consultar detalhadamente as operações realizadas por outro banco, ele pode verificar se o devedor tem operações em atraso, os dias de atraso e o volume financeiro envolvido.

Em 99 passamos de um modelo arcaico, baseado em provisão apenas por atraso (Resolução 1748/90) para o modelo da 2.682 com provisão baseada em risco. E note que até nos dias atuais esta resolução incomoda aquelas pessoas de má fé, que gostariam que a provisão fosse algo hermético, pouco transparente, sem associação com o risco dos devedores. Eu ouvi de um executivo de meia-tijela, completamente sem noção, que esta norma do Banco Central era uma grande bobagem que atrapalhava a escolha do lucro das instituições, questão estratégica (sic) a ser decidida pelas diretorias!

Temos orgulho do nosso Banco Central! E plagiando um famoso professor de contabilidade da USP, escritor de muitos livros, de quem tive a honra de ser aluno, que dizia que a contabilidade (a ciência!) era muito melhor do que os contadores:

As normas do Banco Central são melhores do que muitos funcionários de Instituições Financeiras!

 

Abordagem Probabilística x Abordagem Determinística de um Problema/Fenômeno

segunda-feira, outubro 17th, 2016

Imagine que aquela ação que você comprou há 6 meses, apostando que iria valorizar tenha perdido 20% (vinte por cento) de seu valor inicial. Desesperado você liga para um estatístico (ou um analista financeiro que usa abordagens estatísticas ou probabilísticas para avaliar ações) e ele te responde:

 prob2

Não há nada de errado com a ação. Ela segue um ritmo previsto, ou seja, o seu retorno semestral segue uma distribuição normal com média 15% (quinze por cento) e desvio-padrão de 30%. Numa distribuição de retornos do gênero há cerca de 16% de chance de obter retornos semestrais negativos e inferiores a – 20% (perda de 20%). Ou, ainda, há 5% de chance de o retorno ser pior do que – 42%.

 

 Não gostando das explicações do estatístico você liga para um economista tradicional que estuda os fundamentos da empresa (ou diz que estuda!) e ele explica de uma outra forma:

 newton O problema é que a empresa objeto da ação em tela perdeu Market share nas suas exportações em função da variação cambial que deixou o real sobrevalorizado. O governo já estuda medidas que voltarão a incentivar/facilitar as exportações e o mercado reprecificará o valor da ação daqui a dois meses. A partir daí a ação deverá crescer cerca de 30%.

 

 

Quem é mais convincente? Que explicação agrada mais? Certamente a do economista fundamentalista. Certo? É que o ser humano não lida bem com o probabilístico, o aleatório. A primeira argumentação é deste campo, uma explicação humilde, acanhada que não tenta arregimentar os porquês da queda de preço, informando apenas que está na natureza do  preço (que tem comportamento aleatório) variar, ora para cima, ora para baixo. Ao longo de muitos semestres o estatístico informa que se espera um retorno médio  próximo a 15%, mas nada é garantido, certo ou determinado. Este não é um fenômeno determinístico e eis que o ser humano que quer dominar o mundo, visível, invisível, micro e macro cósmico não aceita com facilidade ficar a mercê do aleatório.

O economista e sua informação estão no campo das abordagens determinísticas! É como Newton, no século XVII, escolheu para dar suas explicações sobre o movimento dos corpos, inclusive dos planetas.  Newton,  apresentou uma fórmula que, de maneira certa, determinística, demonstrava a força que o sol exercia sobre um planeta e em função disso, com precisão incrível, mesmo para aquela época, determinava a trajetória elíptica que o planeta descreveria em torno do sol.  Bastava conhecer as massas dos planetas envolvidos, as distancias entre eles, que a fórmula de Newton resolvia tudo.

Newton fez um enorme sucesso, assim como todos os cientistas que desenvolveram as suas teorias determinísticas (quase sempre no campo da física, matemática e lógica,) no período renascentista ou iluminista que sucedeu a outro período conhecido como idade média. Ao contrário, os probabilistas não lograram o mesmo êxito tendo muita dificuldade de emplacar suas teorias, consideradas acanhadas demais quando comparadas com aquelas deterministas, levando muito tempo para utilizá-las no estudo de fenômenos, situação que aconteceu no final do século XIX, início do século XX.

O problema é que Newton não desenvolveu fórmulas para explicar com precisão os fenômenos sociais, do campo da economia, finanças e contabilidade, por exemplo. Nestes campos, onde as ações do ser humano tem muita influencia, há indicação de que as teorias probabilísticas trazem melhores resultados. O Economista em tela, tem boas histórias, mas não há certeza sobre o efeito delas sobre o preço da ação.

Limites operacionais aplicáveis aos bancos comerciais e aos bancos múltiplos

domingo, outubro 16th, 2016

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Este  artigo é de 2009, mas o seu  conteúdo continua bastante atualizado!

Capítulo I

Motivação para regulamentar

Segundo Garcia (2000), os bancos sempre foram bastante regulados no mundo inteiro e o tempo todo:

Não obstante a intensificação dos movimentos de desregulamentação do setor bancário ocorridos, em âmbito mundial, a partir dos anos 70, as restrições regulatórias continuam sendo uma limitação externa que apresenta impacto fundamental no nível de atividade dos bancos e na sua capacidade de obter maiores níveis de rentabilidade

Consultando autores como Jorion (1997), Sinkey (1998) e Saunders (1997), Garcia (2000) resume os seus pensamentos:

A maioria dos autores consultados, comparando a indústria de serviços financeiros com outros setores da economia, tentam responder por que é necessária a existência de expressiva regulamentação no setor bancário. As respostas concentram-se no problema das externalidades negativas e na necessidade de proteção para os depósitos, os quais podem desestabilizar todo o sistema financeiro. Externalidades negativas existem quando a falência de uma instituição tem o poder de ocasionar prejuízos para outras instituições e para a economia como um todo (risco sistêmico). A proteção dos recursos de pequenos poupadores objetiva dar tranqüilidade e manter a credibilidade do sistema bancário, tentando evitar que deficiências em uma instituição ou choques macroeconômicos, possam provocar corridas generalizadas para saques em contas de depósitos. Além disso, a forte ação regulatória é também exercida para atender às diretrizes da política monetária do governo, imprimindo restrições sobre as taxas praticadas e sobre a quantidade de recursos disponíveis para as aplicações e empréstimos”.

Capítulo II

Regulamentação internacional

De acordo com Matten (1996), o nível de capital dos bancos deve ser suficiente para absorver prejuízos inesperados e ainda garantir condições de sobrevivência e continuidade.

Segundo Garcia (2000):

O problema conhecido como adequação de capital refere-se à definição do volume de capital de que um banco necessita para assegurar a confiança dos depositantes, credores, investidores e reguladores. Esse é um tema sempre presente nas discussões sobre regulação bancária e que tem sido intensificado nos últimos anos, em virtude especialmente de dois aspectos: preocupações com os preços de ativos na economia e o fenômeno de globalização dos mercados”.

Uma das mais importantes iniciativas, em nível mundial, para tornar os bancos mais seguros, com um nível adequado de capital, foi a criação em 1974 do Comitê da Basiléia, no âmbito do BIS – Bank of International of Settlements, uma espécie de banco dos bancos centrais. Em julho de 1988 o comitê editou o documento conhecido como Acordo de Capital da Basiléia que estabeleceu uma metodologia de cálculo para a exigência mínima de capital nos bancos. À época considerou-se basicamente o risco de crédito, ficando os outros riscos para serem contemplados em publicações subseqüentes. Desde 1988 o BIS vem editando sucessivos documentos sugerindo evolução na forma de cálculo do capital, recomendações para uma boa supervisão bancária (por parte dos órgãos reguladores nacionais) e para a divulgação de informações ao mercado.

Atualmente já estamos na fase de implementação do chamado Acordo da Basiléia II, que foi inicialmente publicado em 2004, em nível mundial, e que já vem sendo transformado em normas locais pelos países que seguem as recomendações do BIS.

O mais importante indicador produzido por todo o conjunto de normas do BIS é o indicador que reflete o percentual entre o capital disponível ao banco e seus ativos de risco. Internacionalmente exigiu-se um piso de 8% (oito por cento) para este indicador, enquanto no Brasil, foi traduzido pela resolução 2.099/94, onde se atribuiu um piso de 11% (onze por cento).

Embora as regras da Basiléia, na sua primeira versão de 1988 ou na versão atual, iniciada em 2004, sejam as mais famosas em termos de regulação bancária internacional, Ellert (1990) cita o múltiplo uso de indicadores na indústria bancária norte americana, destacando as mudanças daqueles em função da situação econômica e cada época.

Capítulo III

Regulamentação no Brasil 

Como adepto do Acordo da Basiléia, o Brasil vem, desde 1994, traduzindo as regras emanadas do BIS. A primeira tradução se deu através da já citada resolução 2.099, de 17 de agosto de 1994, que tratava exclusivamente de capital para fazer frente ao risco de crédito.

Desde aquela época até o momento atual o Banco Central já publicou dezenas de instruções para acrescentar novas exigências de capital para fazer frente ao risco de mercado e ao risco operacional. Durante todo esse período o Banco Central foi aprimorando os métodos divulgados, inspirando-se na legislação internacional, mas adaptando as normas à nossa realidade.

Em paralelo às recomendações advindas do BIS, o Banco Central sempre manteve (e ainda mantém) um conjunto de indicadores que os bancos comerciais e múltiplos precisam seguir e que são entendidos como medidas de boa situação econômico-financeira da instituição. É o que apresentaremos no próximo capítulo.

Capítulo IV

Limites operacionais impostos pelo Banco Central do Brasil

1. Sanções

Antes mesmo de apresentar os limites operacionais e os parâmetros mínimos para o nível de capitalização dos bancos, resumimos a Resolução 3.398, de 2006, que não deixa dúvidas sobre a importância que o Banco Central atribui ao cumprimento dos limites:

a) comparecimento de representante legal da instituição (ou controlador) para fornecer explicações sobre eventual desenquadramento, tudo formalizado por meio da lavratura de termo específico por parte do Banco Central do Brasil;

b) apresentação de plano de enquadramento (no máximo 60 dias após o apontamento da irregularidade) a ser apresentado ao Banco Central;

c) elaboração de relatórios de acompanhamento do plano de enquadramento por parte do Auditor Independente responsável pela instituição;

d) manutenção de depósito no Banco Central, pelo prazo máximo de noventa dias, de valor que cubra a deficiência registrada em algum dos limites ou padrão de capital de que se trata;

e) limitação quanto à distribuição de resultados além do mínimo legal até que as deficiências decorrentes do descumprimento dos limites ou padrões de capital tenham sido superadas.

 

2.    Padrões mínimos de capital e limites operacionais vigentes

2.1  Cálculo do Patrimônio de Referência – PR

Embora o conceito de Patrimônio Líquido (PL) continue sendo importante para efeito da avaliação econômico-financeira que se faz dos bancos, via a tradicional análise de balanços, o Banco Central resolveu criar o conceito de PR – Patrimônio de Referência para traduzir a idéia de um capital regulamentar, destinado a absorver eventuais perdas inesperadas (raras mas severas), garantindo assim a continuidade do banco e a devolução, se exigida, dos valores devidos aos depositantes.

O Banco Central definiu também, o PRE – Patrimônio de Referência Exigido, que traduz em número o requerimento mínimo de capital, o que define a capacidade de absorção de perda de um banco, antes que tais perdas comprometam sua capacidade de devolução de depósitos e outras obrigações com terceiros.

Além disso, como veremos mais à frente, o PR é utilizado como base de cálculo de alguns dos limites operacionais.

Em 2007, o Banco Central editou a resolução 3.444, sucessora da resolução 2.099, de 1994, onde apresentou as definições de Nível 1 e Nível 2 de Patrimônio de Referência. De certa forma, a inspiração veio também da legislação internacional e do próprio BIS, que adotou os conceitos análogos Tier 1 e Tier 2 para o capital de um banco.

No Nível 1 consta o capital contábil propriamente dito (capital social), as reservas acumuladas (lucros não distribuídos) e o fluxo líquido acumulado de receitas e despesas até o momento da apuração. No Nível 2 entram os recursos acessórios como as dívidas subordinadas de longo prazo. A citada resolução 3.444 apresenta uma série de exigências para que uma dívida subordinada de longo prazo seja considerada no Nível 2 de PR, exigindo, inclusive, aprovação prévia do Banco Central. Ademais a mesma instrução limita o valor do Nível 2 a 100% (cem por cento) do valor registrado no Nível 1 de PR.

O PRE é o sucessor do antigo Limite de Alavancagem que, quando vigente, representava a proporção de captação de recursos de terceiros comparativamente à proporção de recursos próprios aportados no banco.

Com o advento do PLE (sigla posteriormente ajustada para PRE) o conceito de alavancagem foi alterado, já que o PR passou a ser comparado com os ativos do banco e não mais com os passivos.

Outro aprimoramento foi a ponderação dos ativos pelo risco, através de pesos, denominados FPR (Fatores de Ponderação de Risco, definidos inicialmente pela resolução 2.099/1994 e atualizados pela resolução 3360/2007), que variam de 0 a 100%, e que são divulgados e atualizados, periodicamente, pelo Banco Central.

2.2 Limites Operacionais

São os seguintes os limites operacionais tratados na resolução 3398 (a que prevê sanções para os casos de descumprimento):

2.3 Limite Máximo de Exposição (Resolução 2.844, 1998)

A Resolução 2.844, de março de 1998, estabeleceu os seguintes limites percentuais para a concentração de exposição ao risco de crédito, também denominado de Diversificação de Risco:

a) 25% do PR – Patrimônio de Referência para um único cliente (pessoa física, pessoa jurídica ou grupo econômico, quando este for caracterizado). Aqui, quando se tratar de clientes do setor público, agrupa-se o município com as suas empresas e autarquias, o estado com as suas empresas e da mesma forma se procede para a União Federal. Entretanto, não se inclui aqui os chamados repasses interfinanceiros. Esta questão de repasses interfinanceiros é especialmente importante para os bancos cooperativos.

b) 600% do PR – Patrimônio de Referência em Exposições Concentradas. Exposições Concentradas são aquelas que, individualmente, representam mais de 10% do PR.

2.4  Limite Máximo de Aplicação no Ativo Permanente ou Limite Máximo de Imobilização (Resolução 2.283, 5/61996, alterada pela Resolução 2.669, de 25/11/ 1999)

Os Bancos Comerciais e Múltiplos devem limitar a sua aplicação em Ativos Permanentes em 50% (cinqüenta por cento) do PR. Obviamente que este limite objetiva concentrar os recursos e a atenção do Banco no próprio negócio.

2.5   Limite Máximo de Crédito ao Setor Público (resolução 2.827, de março de 2001)

Os Bancos Comerciais e Múltiplos devem limitar a sua aplicação em entidades do setor público a 45% (quarenta e cinco por cento) do PR. Esta limitação é análoga à concentração máxima permitida com cliente do setor privado (25% do PR).

2.6   Limite Máximo para Operações Compromissadas

Até 30 (trinta) vezes o PR quando o lastro for em títulos públicos e até 5 (cinco) vezes o PR quando o lastro for em títulos privados.

Capítulo V

Bibliografia

 

  1. Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro, ANDIMA, sítio na internet.
  2. Banco Central do Brasil, BACEN, resolução 2.844, consultada no sítio www.bcb.gov.br, 1998.
  3. Banco Central do Brasil, BACEN, 3.444, consultada no sítio www.bcb.gov.br, 2007.
  4. Banco Central do Brasil, BACEN, 2.827, consultada no sítio www.bcb.gov.br, 2001.
  5. Banco Central do Brasil, BACEN, 3.398, consultada no sítio www.bcb.gov.br, 2006.
  6. Ellert, James C. et alii. Administração Financeira em Bancos. São Paulo: IBCB, 1990.
  7. Garcia, Solange dos Reis, Tese de Doutorado, sob orientação do Professor Doutor Eliseu Martins, apresentada ao Departamento de Contabilidade e Atuária, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, da Universidade Federal de São Paulo, 2000.
  8. Jorion, Philippe. Value at Risk. New York: McGraw-Hill, 1997.
  9. Matten, Chris. Managing bank capital. London: John Wiley & Sons, 1996.
  10. Saunders, Antony, Financial Institutions Management: A modern perspective. 2. ed. New York: Irwin, 1997.
  11. Sinkey, Joseph F. Commercial Bank Financial Management. 5. Ed. New Jersey: Prentice Hall, 1998.

Gestão do risco de crédito – sem sistemas especializados não vai!

domingo, outubro 16th, 2016

alvo

Militei em Instituições Financeiras (IF) por mais de 34 anos, dos quais 25 anos foram dedicados à gestão de riscos, crédito, controladoria, controles internos e auditoria!

Quase sempre o segredo para uma boa gestão (tempestiva, eficaz e eficiente) é a existência de uma boa plataforma tecnológica, com sistemas especializados em determinados assuntos para os quais a tecnologia interna à empresa teria muita dificuldade em desenvolver. Ou demoraria muito ou faria de forma incompleta em relação ao que hoje se oferece no mercado!

Um desses assuntos, que está em moda e que já foi objeto de vários artigos aqui no blog, é a gestão do risco de crédito em nível de carteira. Temos registrado que as concentrações de risco de crédito são perigosas, podendo, em alguns casos, serem mortais para a IF.

As normas atuais para gestão do risco de crédito nas IF indicam a necessidade de realização periódica de simulações de situações extremas, ou de stress, de maneira a se avaliar a suficiência das provisões e do  capital econômico e regulamentar para suportar eventos fora de série, singulares.

ja indicamos um caminho, ou seja, manter informações detalhadas sobre a carteira de crédito, desdobradas por setores econômicos, produtos e tipo de garantia que combinadas com as tais matrizes de migração de rating de risco, permitirão análises mais robustas sobre a suficiência do capital interno, para evitar falência, bancarrota e prejuízos aos clientes e à sociedade em geral.

As tais matrizes de migração trazem consigo as pistas (estatísticas) para os movimentos bruscos/singulares sobre os Ratings de clientes e operações, permitindo analisar o impacto esperado e extremo sobre a provisão e sobre o capital regulamentar.

Há empresas especializadas neste assunto que podem, num curto espaço de tempo, instalar e colocar em funcionamento estas poderosas ferramentas, permitindo assim uma gestão eficaz e eficiente do risco de crédito. Com um instrumental desse porte, a IF pode estabelecer políticas limitando as concentrações de crédito nos diferentes setores econômicos, simulando perdas esperadas e extremas para serem confrontadas com os retornos esperados.

 

Medindo e gerindo o risco de crédito em nível de carteira!

domingo, outubro 16th, 2016

ovos na cesta

A ideia da diversificação é antiga. Do ponto de vista teórico, o pioneiro no tratamento desta questão foi Harry Markowitz, com o seu artigo Portifolio Selection, publicado em 1950, tendo criado um ferramental matemático para quantificar a diversificação de risco em função de correlações entre os diferentes títulos ou ativos.

Enquanto as chamadas Regras de Basileia avançavam no mundo (desde 1988) e aqui no Brasil (desde 1994), muitos pesquisadores, patrocinados ou não por instituições financeiras, desenvolveram ferramental matemático para tratar especificamente a questão da mensuração do risco de crédito em nível de carteira. Os modelos mais famosos foram o Creditmetrics (JP Morgan) e o CreditRisk + (Credit Suisse First Boston), ambos patrocinados por grandes bancos e ambos de 1997.

Uma das finalidades de se adotar modelos como estes é calcular a perda inesperada da carteira, que deveria ser coberta por um Capital Econômico, de maneira a evitar a bancarrota das instituições financeiras.

Tais modelos chegaram a inspirar os reguladores, notadamente quanto a permissão de uso de modelos proprietários para quantificação do capital regulamentar mínimo. Entretanto, para as instituições financeiras de menor porte, utiliza-se modelos mais simples.

Você poderia estar pensando:

Isto é pura teoria! pouco prático! Eu simplesmente pego as minhas operações, ordenadas pelos ratings de AA a H (segundo a Resolução Bacen 2.682/99),  e  faço simulações em cenários de stress,  do tipo Ad Hoc, supondo a queda simultânea de alguns degraus nos ratings.  E arbitro que os rating cairão dois níveis ou três níveis, dependendo do momento vivido ou simulado. Então, refaço o cálculo da provisão segundo as novas letrinhas pós stress.

Eu digo: legal, faz sentido o que você quer fazer. Inclusive, acrescento que é melhor fazer isso do que não fazer nada.

Mas ficará sempre a pergunta: qual o verdadeiro grau de rebaixamento simultâneo de risco das operações da carteira? Não tem um método mais preciso? Algo mais científico? Eis que o mundo acadêmico vive de responder estas questões e poe-se a trabalhar.

Entretanto, quando se estuda em detalhes os métodos e as exigências de dados dos dois modelos citados, começa-se a pensar que de fato é assunto reservado para a academia ou para bancos de grande porte! Fica a pergunta: o JP Morgan e o Credit Suisse utilizam-nos?

Entre a medida simplista da simulação Ad Hoc descrita anteriormente e os modelos sofisticados, podemos descobrir um meio termo. Poderíamos dividir as operações por setores econômicos e por tipo de garantia. Assim a nossa simulação Ad hoc já iria sofisticando-se. Em vez de termos apenas ratings (de AA a H) para agrupar operações, elas seriam agrupadas por setor econômico e tipo de garantia. Assim teríamos as operações do setor de mineração com garantia de hipoteca, com garantia de penhor, com aval e as sem qualquer garantia. As operações do setor agrícola, do setor pecuário, do setor de transportes terrestres, de transportes aéreos e assim por diante. Pode-se adotar uma classificação setorial do IBGE, por exemplo.

A partir daí poderíamos arbitrar cenários diferentes para o stress de crédito em função dos diferentes setores e ainda sim considerar algum beneficio da atividade de recuperação de crédito, sobretudo em função da garantia.

A partir daí as nossas avaliações de perdas inesperadas (e necessidade de reforço de capital) vão sendo aprimoradas, podendo inclusive serem comparadas com a definição regulamentar de capital dada pelo órgão regulador.

Entretanto, um movimento como este necessitaria de um poderoso software/aplicativo que fornecesse as informações das operações de crédito agrupadas por setor econômico, por tipo de garantia e muitos outros atributos.

O último passo é aprovar políticas que limitem os valores máximos que poderiam ser operados com setores e por determinados tipos de garantia! E, periodicamente, geram-se relatórios para a diretoria acompanhar e decidir sobre a manutenção ou aumento dos limites citados.

Deixa que eu deixo!

sexta-feira, outubro 14th, 2016

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No futebol, que sempre inspira a todos nós brasileiros, do cidadão comum aos presidentes da república, ocorre  uma situação vexaminosa, ridícula,  quando os jogadores  não combinam adequadamente uma estratégia em que  deveriam participar dois ou mais deles e tudo sai completamente errado. O exemplo mais notório é a cobrança ensaiada de falta onde se prevê uma artimanha com o objetivo de iludir o goleiro adversário sobre quem de fato cobrará a penalidade, mas ao final os jogadores se atrapalham, a bola fica parada e a torcida vaia. Para  situações do gênero o folclore futebolístico reservou a expressão DEIXA QUE EU DEIXO!

Tal erro se repete também no congresso nacional e nas empresas! Sabia? Sim, no caso da Câmara Federal,  aquele número enorme de deputados (514) não penaliza o Brasil apenas pelo lado dos gastos, dos custos com salários e mordomias. Há algo pior que fica implícito! Não tendo o que fazer, não tendo sequer representatividade popular adequada ao longo do mandato, a maior parte dos deputados acaba por atrapalhar o bom ritmo da legislatura. Na situação de pior caso, compõem o chamado baixo clero que, não tendo iniciativas, projetos e idéias para melhorar o país, terminam por cobrar propina, direta ou indiretamente, para deixar as boas idéias fluírem. Acabam por interpor dificuldades para ganhar facilidades!

Nas empresas a questão é mais sutil,  mas com consequência parecida!  Deixe as estruturas organizacionais mal desenhadas, sombreadas ou com penumbras que você observará o mesmo efeito perverso! Estruturas inadequadas quase sempre implicam em atritos desnecessários, consumo elevado de tempo e dinheiro para decidir questões importantes. Numa situação de pior caso, o de penumbra, ela deixa claros na estrutura de responsabilização, trazendo consigo o risco de decisões equivocadas ou simplesmente ausência de decisões!  Um bom planejamento e, em alguns casos, a contratação de uma consultoria especializada podem ajudar a resolver esses problemas.

 

 

Odebrecht expõe ao país o subsolo do abismo

segunda-feira, outubro 10th, 2016

Publicado no Blog do Josias, UOL.

Josias de Souza

A Lava Jato eliminou a ideia de que o Brasil estava condenado a viver à beira do abismo. A operação fez desaparecer a noção de borda. O país escorregou para dentro do precipício. A delação da Odebrecht, que chega ao noticiário em conta-gotas, leva o brasileiro para um outro patamar, bem mais profundo. Com suas revelações devastadoras, os corruptores da maior construtora brasileira expõem à nação o subsolo do abismo. É onde se aloja o insondável. O Brasil está sendo apresentado, finalmente, ao magma que o pariu. No subterrâneo do abismo, o sonho de “estancar a sangria” tornou-se um pesadelo hemorrágico.

Visto de baixo, o governo de Michel Temer ganhou a aparência de um empreendimento precário. Todos sangram. O próprio presidente aparece nas delações requisitando uma odebrechtiana de R$ 10 milhões. Seus amigos e correligionários do PMDB plantam bananeira na areia movediça: Padilha, Moreira, Geddel, Jucá, Renan… Candidatos do Planalto às presidências do Senado e da Câmara, Eunício e Maia são pavios acesos. Aliados como Aécio, Serra e até Alckmin, “o santo”, brincam na lama depois de se banhar nas águas do impeachment.

Tornou-se impossível prever como o governo Temer chegará a 2018. Difícil dizer até mesmo se chegará tão longe. O futuro chega tão rápido que já está atrás de nós. Em 3 de maio de 2015, Emílio Odebrecht, o patriarca da construtora, anotou o seguinte num artigo:

”A corrupção é problema grave e deve ser tratado com respeito à lei e aos princípios do Estado democrático de Direito, mas é fundamental que a energia da nação, particularmente das lideranças, das autoridades e dos meios de comunicação, seja canalizada para o debate do que precisamos fazer para mudar o país. Quem aqui vive quer olhar com otimismo para o futuro —que não podemos esquecer—, sem ficar digerindo o passado e o presente.”

Nessa época, Emílio cobrava, estalando de pureza moral, “uma agenda clara de crescimento com desenvolvimento para o Brasil.” E seu filho, Marcelo Odebrecht, preso em Curitiba, dizia que não seria delator porque não tinha o que delatar. Desnudados pelos investigadores, pai, filho e os santos espíritos da Odebrecht despejam sobre o presente revelações de um passado que leva o país a desacreditar do futuro.

Conselho útil: aperte os cintos. Com a delação da Odebrecht, o Brasil está aterrissando no subsolo do abismo. O PT celebra a chegada de companhia. Quem olha ao redor percebe por que o Brasil é o mais antigo país do futuro em todo o mundo.