Archive for novembro, 2016

Um mea-culpa de um Jornalista Português sobre a eleição de TRUMP

quarta-feira, novembro 9th, 2016

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Jornal Publico (P), de 09/11/2016, Portugal.

OPINIÃO

É amarga, mas justa, a lição que Donald Trump acabou de nos dar

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso. Trump ganhou. Nós perdemos. Por nós quero eu dizer os meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Segundo as histórias que nós contamos aos leitores e uns aos outros o que acaba de acontecer era impossível.

As nossas sondagens e opiniões – incluindo as minhas – não só se enganaram redondamente como contribuíram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos estados totalitários.

Eu leio todas as semanas duas revistas conservadoras americanas – The Weekly Standard e National Review. Leio todos os dias o igualmente pro-Republicano Wall Street Journal. Em nenhum deles fui avisado que Trump poderia ganhar.

Sinto-me vítima de uma conspiração – não da parte de Trump mas da parte dos media. Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.

Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.

A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso.

Dinheiro público e água benta todo mundo mete a mão!

domingo, novembro 6th, 2016

publico

O título deste artigo é um ditado italiano, mas poderia muito bem ter sido cunhado aqui, em paragens tupiniquins!

O desrespeito do brasileiro para com o dinheiro público manifesta-se de diferentes maneiras: quebra de placas de trânsito, postes de iluminação e outros equipamentos públicos, pichação de monumentos e desvios, muitos desvios de recursos públicos na forma de corrupção. Do dinheiro da merenda escolar à construção das sondas de prospecção de petróleo.

Talvez a mais simbólica forma de desprezo pela coisa pública, que eu tenha visto,  numa época em que ainda não se tinha celular e as companhias telefônicas eram estatais, era a destruição maciça dos chamados orelhões!  Quantas vezes vi, com “meus próprios olhos”, os resultados desta destruição, em várias cidades onde passei e morei. E, claro, por vezes precisei e não consegui usar um orelhão, como deve ter acontecido com muitos brasileiros.

Mas não deixa de ser interessante o paradoxo de o brasileiro querer ser guiado e protegido pelo estado, através dos seus funcionários, órgãos e empresas públicas, preferindo este modelo à iniciativa privada e ao mesmo tempo mostrar-se tão destrutivo e irresponsável em relação à coisa pública. É caso para umas oitocentas teses de doutorado em sociologia, antropologia e psicologia. (rs).

Quem sabe esta crise e a PEC 241 não tragam alguma reflexão sobre o nosso modo de agir e ensejem mudanças no comportamento do brasileiro? A percepção de que o dinheiro público nada mais é do que o nosso dinheiro, recolhido pelo estado sob a forma de impostos/taxas, sendo FINITO, ESCASSO e, portanto,  precisa ser BEM APLICADO sob pena de continuarmos um país grande e subdesenvolvido.

No momento em que as nossas ações cotidianas, simples que sejam, ensejarem respeito pelo dinheiro e pela coisa pública, a consequência imediata é que, do seio desta nova sociedade, brotarão novos políticos e autoridades com o mesmo espírito. E a mudança tão sonhada e esperada se tornará realidade.

Credit Score ou Behavior Score ?

quinta-feira, novembro 3rd, 2016

score

Os dois. O primeiro método para avaliar novos clientes com os quais o banco ou a cooperativa de crédito ainda não tem experiência relevante. O segundo já considera o comportamento do cliente, em termos de utilização da conta corrente, de serviços de cobrança, do próprio crédito e assim por diante.

Independentemente da técnica utilizada, se análise discriminante, regressão logística, rede neural, o importante é estar sempre testando e evoluindo a metodologia. Os backtests devem ser feitos contra um critério objetivo para caracterizar o bom e o mau cliente. Esperar a transferência para perdas para só assim declarar o cliente como sendo mau me parece um exagero, assim como considerar um atraso de 30 dias para colocar o mesmo rótulo.

Pela minha experiência o atraso maior ou igual a 90 dias é um bom critério para caracterizar o insucesso de uma operação de crédito e levar o rótulo de mau para o cliente. Óbvio que aqui falamos de mau pagador e não de má pessoa!

O mais comum e tradicional é utilizar a regressão logística que pode ser trabalhada em softwares como SPSS ou SAS, este último mais parrudo e mais utilizado pelo mercado.

Idealmente gostaríamos de reavaliar os clientes todos os dias com novas informações disponíveis mas isso pode ser demasiado caro e inviável. Na prática, separam-se os cliente em grupos, um de menor porte e outro de grande porte.

Para os cliente de grande porte um modelo tipo behavior score pode ser atualizado (pelo menos com as variáveis mais relevantes) semanalmente, ou se isso for muito caro, mensalmente. Após a rodada, o novo risco deve passar pelo crivo de analista responsável pelo cliente.

Na prática os modelos de score constituem apenas uma avaliação inicial e parcial do grande tomador, devendo ser complementada pela análise humana, via especialista em análise de crédito.

Para os clientes de menor porte, sejam eles novos entrantes (credit score) ou clientes antigos (behavior score), admite-se revisões anuais de risco. Um banco ou cooperativa de crédito mais conservadora poderia definir que a revisão do risco dos clientes controlados por modelos do tipo behavior seja feito semestralmente e os demais anualmente. Isto é aderente ao exigido na resolução 2.682/99, quando se imagina que o risco do cliente é um componente exigido para o cálculo do risco da operação.

Aliás, sobre isso, consideramos como sendo ideal a utilização de um modelo do tipo PD x LGD, onde a PD vem das metodologias de escoragem que avaliam o cliente/tomador e a LGD vem da característica do produto de crédito e das garantias. Pode-se adotar ainda uma PD coletiva, analisada em grupo/carteira, para carteiras de varejo, dispensando a análise individual. Isso economiza muito processamento!

p.s. Voltaremos a este assunto para esclarecer de forma didática os conceitos de PD, LGD, Regressão Logística e outros aqui utilizados. Por enquanto, este artigo é dirigido a especialistas na área.

Voltando à operação com o termo de ação!

quarta-feira, novembro 2nd, 2016

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Num artigo anterior descrevemos uma operação de arbitragem financeira que produz um ganho fácil, com taxa de retorno maior do que a taxa livre de risco da economia e sem que o investidor corresse qualquer risco. O agente tomava emprestado à taxa livre de risco (próximo a 14,25% ao ano), comprava uma ação no mercado a vista e, simultaneamente, vendia no mercado a termo! Um desequilíbrio de preços e taxa de juros, permitia o ganho fácil. Como dissemos à época, esta é uma operação possível mas rara, já que os mercados estão cada vez mais afinados, sintonizados uns com os outros.

Entretanto, há uma operação muito comum, da mesma forma descrita, mas que não se caracteriza como sendo arbitragem. É uma operação de risco. Compra-se a ação a vista e simultaneamente vende a termo. Normalmente a taxa do termo é menor do que a taxa livre de risco, mas o agente que monta a operação conta com a antecipação da operação para ter um lucro extraordinário.

Vamos a um exemplo que tudo fica mais fácil. Suponha que uma ação está sendo negociada a R$ 100,00. A taxa livre de risco (a taxa do CDI ou SELIC) está em 14,25% ao ano ou 1,12% ao mês. Então, se corrigirmos o preço da ação a vista por dois meses, o seu preço seria de 100 x 1,1425^(2/12) = 102,25. Entretanto, o mercado a termo negocia a tal ação por R$ 101,91 para daqui a dois meses. Note que a taxa do termo é menor do que a taxa livre de risco. No presente caso a taxa do termo é equivalente a 85% da taxa CDI. Esta é a realidade dos negócios de termo de bolsa onde se compra a ação a vista e vende-se simultaneamente no mercado a termo.

O leitor atento pergunta, e porque eu faria isso? Sintetizar uma operação de renda fixa com ações para ganhar menos do que a taxa do CDI? Da perspectiva de uma instituição financeira que pode aplicar tranquilamente suas sobras de caixa no OPEN ou no CDI, diariamente, porque, então, ela faria um negócio como este?

A resposta é simples: porque espera-se que o comprador do termo, a outra ponta, exerça o seu direito antecipadamente. No exemplo em tela, se com trinta dias o comprador do termo pagasse os R$ 101,91 pela ação que custou R$ 100,00, a taxa de retorno do negócio seria de 25,49% ao ano, ou incríveis 179% da taxa CDI.

Só o comprador (pessoa que o vendedor geralmente não conhece, pois o negócio é intermediado por uma corretora), pode antecipar, mas quando antecipa dá um ganho maior para o vendedor. E porque o comprador do termo faria isso? Ora, uma possibilidade é diante de uma onda altista. Se o preço da ação ao final de 30 dias passar para R$ 105,00, o comprador teria um lucro fantástico.

Digamos que a margem inicial de depósito (garantia) para o comprador tenha sido de 20% (vinte por cento) do valor do termo. Então, no início do negócio ele teve que depositar a quantia de R$ 10,19 para em trinta dias receber a quantia líquida de R$ 13,28. Como assim? Sim, ele recebe de volta a margem depositada (R$ 10,19), paga R$ 101,91 e vende ação no mercado a vista por R$ 105,00. Faça a conta e verá que ele embolsou a quantia de R$ 13,28, produzindo uma taxa de retorno de 24,76% ao ano. Um negócio fantástico tanto para o comprador do termo quanto para o vendedor.

O vendedor aqui opera coberto e dele não é exigida margem de garantia pela bolsa. Ele é chamado de financiador, pois no fundo queria ganhar uma taxa de juros maior do que a normal. O comprador é o especulador puro e simples. Apostava na alta de preço da ação. Se isso não acontecesse ele perderia! O financiador perderia, também, mas somente em termos de oportunidade, pois poderia ter um rendimento de apenas 85% da taxa do CDI caso não houvesse exercício antecipado.

Note que pode haver exercício antecipado tanto na onda altista quanto na queda de preços da ação. Sério? Sim. Acompanhe a lógica! Se o preço vai caindo, a bolsa vai exigindo mais margem do comprador. Se ele percebe que a “a vaca já está indo para o brejo”, ele prefere stopar a operação do que continuar correndo risco. Ele vai e liquida a operação para parar o prejuízo. O financiador do termo ganha com isso.

Portanto, a oportunidade do financiador parece surgir exatamente quando o mercado está muito volátil. Na prática, entretanto, eu, pessoalmente, acredito que esta operação tem lugar mesmo é em cenário altista para a bolsa!

Como última observação, esta operação quase não tem risco, pois a bolsa garante quase tudo, exceto no dia da liquidação em que o dinheiro dos investidores saem da bolsa e transitam pelas corretoras. Os investidores, em particular o financiador, corre o risco de liquidação, normalmente o risco de um dia.

Sintetizando operação de renda fixa com ações!

terça-feira, novembro 1st, 2016

mercado-de-acoes

Já ouviu falar nisso? Pois é, tem coisas de fato surpreendentes no mercado de capitais. Você pode lidar com ações para gerar uma operação de renda fixa. Vamos devagarzinho  para ninguém se assustar e desistir de ler porque a pretensão deste que escreve é atrair leigos para o blog!

Quem compra uma ação obviamente está apostando na alta dos preços. Se você pagar R$ 14,20 na ação da Vale é porque você espera que nos próximos dias ela valorize. Ou você vai vender para realizar o lucro ou você quer ter alguma influência sobre o comando da empresa. O mais comum é o primeiro tipo de ação, a de especulador. Certo?

Agora, você sabia que tem um mercado a termo de ações na própria Bovespa? Isso mesmo, é possível negociar no presente, para tanto pegar a ação  quanto pagar no futuro. Você combina o preço que vai pagar por ela daqui a 30, 60 ou 90 dias. Qual o sentido disso? O mesmo, o de especulação, o de crença que o preço irá subir nos futuro! E neste mercado o legal é que você não precisa desembolsar todo o dinheiro no momento da negociação. Você paga apenas uma margem e os custos operacionais (corretagem, emolumentos da bolsa, taxas etc..). Suponha que a bolsa tenha dito que para uma operação a termo com ação da Vale você tenha que depositar uma margem de 20%. Então, em vez de pagar os R$ 14,20 pela ação você deposita R$ 2,84 e fica com o direito (e também obrigação) de receber a ação daí a 60 dias pagando o restante, o que falta para completar os R$ 14,20. Claro que você espera que no momento em que estiver recebendo a tal ação o preço já seja muito maior do que os R$ 14,20. Imagine, por exemplo, que ao final dos 60 dias o preço da ação esteja em R$ 16,20. Então, o seu fluxo de caixa é mais ou menos assim: na data da negociação desembolsou R$ 2,84 e na data da liquidação (com venda simultânea da ação no mercado a vista) você recebe (R$ 16,20 – R$ 11,36) = R$ 4,84. Então, um ganho fantástico! O mercado a termo permitiu especular ainda mais, pois reduziu o desembolso inicial. Assim, o investidor-especulador pode comprar mais ações a termo do que a vista com o mesmo recurso inicial.

No exemplo anterior, o comprador do termo tem a obrigação de exercer no final do contrato, no vencimento. Se  a  ação  caísse  a  R$ 9,00, o investidor amargaria um prejuízo, pois teria que pagar os R$ 14,20 por uma coisa que está valendo muito menos.

E vendedor do termo? A bolsa só admite a venda coberta! Ele tem que ter a ação depositada em custódia na própria bolsa, mas também não é obrigado a depositar margem.  A lógica deste aqui é contrária à do outro? Aí que está o segredo! Nem sempre. Uma lógica possível é essa, o investidor está carregando a ação (detém a ação) e ao acreditar que ela vai cair de preço, já vende no mercado a termo porque acredita que o preço a vista no futuro será menor.

Entretanto, tem uma outra lógica que é exatamente a objeto deste artigo! Imagine a seguinte situação, o preço da ação a vista está em R$ 14,20, o investidor pode tomar recursos no mercado a 14,25% ao ano e o preço a termo para 60 dias está cotado a R$ 16,00. O agente tem a seguinte ideia: toma dinheiro no mercado a 14,25% ao ano, compra a ação a vista e simultaneamente vende a termo. Ele ficou com a expectativa de receber R$ 16,00 daí a 60 dias, entregando a ação e pagando o empréstimo bancário no valor de R$ 14,52. Restou limpinho no bolso do investidor a quantia de R$ 1,48 e note que ele não desembolsou quantia alguma. Isto é uma arbitragem! O agente aproveitou-se de um desequilíbrio entre os mercados a vista e a termo da ação e ganhou sem correr risco. Esta operação só foi possível porque a taxa implícita no negócio do termo estava muito alta, muito acima da taxa de juros do financiamento bancário. Note que ele ganhou mais do que a taxa livre de risco da economia, no caso, uma taxa de 14,25% ao ano.

A situação acima ocorre na vida real? Resposta: raramente, mas por incrível que pareça ocorre! Onde tem ser humano há erros. Mas em mercados muito líquidos e eficientes, como é o caso da Bovespa, estas distorções vingam apenas por pouco tempo, poucas horas, para logo depois voltar ao estágio de equilíbrio. No caso em tela, muito provavelmente, depois que muitos investidores percebessem a oportunidade e começassem a vender a ação a termo, seu preço cairia para valor próximo de R$ 14,52, tornando inócua a estratégia de arbitragem aqui descrita. Esta estratégia é denominada de operação de financiamento de ações no mercado a termo.

Voltaremos a este assunto para explicar ainda como esta operação pode ser lucrativa mesmo não havendo arbitragem!