Archive for fevereiro, 2018

Diga-me como é a tua rede e eu direi quem tu és!

sábado, fevereiro 24th, 2018

Eu tenho chamado a atenção para o fato de o contribuinte brasileiro estar financiando uma rede de cooperativas de crédito que não atende as suas necessidades presentes e, a continuar nesse ritmo, não atenderá no futuro. As cooperativas fazem muito pouco crédito e com isso fomentam muito pouco as economias regionais, contrariando os seus próprios princípios cooperativistas. Este artigo volta-se, sobretudo, para os sistemas cooperativistas de crédito, organizados em três níveis, que representam mais de 80% (oitenta por cento) dos negócios do chamado Sistema Nacional de Crédito Cooperativo.

Se você acessar www.blogdocastellano.com.br vai se deparar com um conjunto de artigos onde faço críticas e ofereço sugestões para melhorar a situação atual. De uma maneira geral, resumo aqui o que precisa ser feito: i) melhorar a estrutura organizacional dos sistemas cooperativistas de crédito, reduzindo o número de órgãos e diretorias; ii) alterar a legislação para incentivar a renovação de dirigentes; iii) unificar empresas prestadoras de serviços inter-sistemas cooperativistas de maneira a permitir uma economia de escala e vantagem competitiva; iv) investir em sistemas padronizados de processamento de dados, notadamente para massificar o crédito no ambiente cooperativista; e v) criar um fundo para incentivar a criação de pontos de atendimento em regiões hoje não atendidas.

Para elaborar este artigo passei o período do feriado de carnaval baixando e cruzando dados do Banco Central (Bacen) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para estudar tanto a rede bancária (agências e pontos de atendimento bancário – pab) quanto a rede de cooperativas ou rede do Sistema Nacional Cooperativista de Crédito – SNCC (cooperativas sede e postos de atendimento cooperativo – pac).

Foi um festival de “procv”! (risos). Para quem não conhece o aplicativo Ms-Excel, a “procv” é uma função que permite cruzar planilhas de dados através de um campo comum. Assim cruzei dados de municípios (população) com quantidades de agências, cooperativas sede e seus postos de atendimento.

Vamos então à primeira tabela, a Tabela 1 que apresenta a distribuição dos pontos de atendimento pelos municípios brasileiros.

Note que temos ainda 365 municípios sem qualquer atendimento bancário ou cooperativo. A rede bancária deixa de estar presente em 534 municípios e a rede de cooperativas em 2.884. Note também que dos 1.237 municípios até 5.000 habitantes, a rede bancária deixa de atender 424 e a rede de cooperativas se ausenta em 691. Outro ponto importante, em municípios com mais de 20.000 habitantes os bancos estão sempre presentes, já as cooperativas deixam de atender municípios que também possuem elevada densidade populacional, como é o caso dos 48 municípios de médio porte (população entre 100 e 500 mil habitantes) não atendidos pelas cooperativas.

Na Tabela 2, resumimos algumas estatísticas simples. Por exemplo, 99,oo% da população dos municípios brasileiros são atendidos pela rede bancária. As cooperativas incrementam esse número em apenas 0,29%, atendendo 169 localidades onde os bancos não chegam. Pode-se dizer que a rede de cooperativas não acrescenta muita coisa à rede bancária em termos de topologia. Em outras palavras, o brasileiro não pode contar com as cooperativas para preencher claros deixados pelos bancos, pois elas tendem a ser um subconjunto da rede bancária. E mais, hoje se a rede bancária deixasse de existir as cooperativas deixariam sem atendimento quase metade dos municípios brasileiros.

 

Na Tabela 3 fizemos um trabalho numérico equivalente à comparação visual das formas de duas figuras. Na verdade três. Comparamos a distribuição da população pelos municípios com a distribuição da rede de postos de atendimento dos bancos e com a distribuição da rede de atendimento das cooperativas. Note que na segunda, quarta e sexta colunas temos os percentuais que representam as distribuições dos pontos de atendimento da rede dos bancos, da rede de cooperativas e da população brasileira pelo território nacional.

Nas duas últimas colunas da Tabela 3 listamos números que indicam a distância da rede bancária e da rede de cooperativas, respectivamente, à distribuição da população. Utilizamos a distância quadrática para medir o afastamento das duas redes à distribuição natural da população. Note que a rede bancária ficou com distancia total de 12,96 e a rede de cooperativas alcançou a distância de 39,05.

O que isto significa?

Que a rede de cooperativas está bem mais distante da população em geral do que a rede bancária. Eu venho dizendo isso de outras maneiras, talvez de uma forma mais qualitativa, em outros artigos. Aqui quantificamos a distância do cooperativismo para o povo em geral. Esta distância tem se revelado sobretudo com relação a micro e pequenos empresários que, em países europeus ou norte-americanos, onde o cooperativismo de crédito desenvolveu-se mais, são os principais beneficiários do cooperativismo.

Aqui, em paragens tupiniquins,  nossa rede de cooperativas é dominada pelos grandes produtores rurais e tem se mantido no circuito rico do agronegócio, ou agribusiness, como gostam de dizer. Se não mudarmos esta situação, no futuro, nossa história contará mais algumas páginas de injustiças, descrevendo a transferência de riqueza do contribuinte brasileiro para o setor mais abastado da sociedade.

Mas ainda há tempo de mudar esta história!