Archive for julho, 2018

Cooperativismo de Crédito: um balanço nada combinado!

domingo, julho 1st, 2018

Pobres associados! Pobres contribuintes!

Andando por aí a gente percebe o esforço dos funcionários das cooperativas singulares em busca de crescimento da participação de mercado do segmento cooperativista de crédito, em muitos casos duelando com gigantes do setor financeiro. Mas carregam um grande peso em suas sedes, incluindo aí as muitas cooperativas centrais.  Quem acompanha os meus artigos no blog www.blogdocastellano.com.br sabe das críticas (e sugestões) que faço com relação ao excesso de diretorias, de cargos, de cooperativas centrais, de órgãos criados por aqueles que se instalam nas sedes dos sistemas cooperativistas e nas cooperativas centrais, dos sistemas organizados em três níveis. Na prática, repetem os piores passos dados pelo setor público, gerando ineficiência e dificultando o avanço do cooperativismo de crédito.

Quando se observa o balanço combinado dos maiores sistemas cooperativistas, normalmente publicado com grande atraso,  não se percebe o que representam as cooperativas centrais e as confederações nacionais, dado que não ficam explícitos na consolidação (ou combinação) os elevados custos de manutenção desses órgãos. Se o associado tivesse a chance de conhecer melhor os muitos órgãos criados nas sedes dos sistemas cooperativistas perceberiam, por exemplo, a exagerada quantidade de pessoal alocada em áreas de “tecnologia”, com baixíssima produtividade, evidenciada pelos muitos sistemas criados e em desuso, verdadeiros elefantes brancos. Aliás, aqui também, navegam na contramão do mercado, que cada vez mais terceiriza os seus serviços, levando para a chamada nuvem (cloud computing), as suas aplicações e toda a infraestrutura de Tecnologia da Informação. O excesso de funcionários e equipamentos só interessam a alguns poucos dirigentes e a alguns poucos fornecedores.

Embora consumam uma verdadeira fortuna em viagens à Alemanha, berço do cooperativismo de crédito, muitos dirigentes privilegiados, mesmo depois de visitarem pela décima vez (e há dirigentes que fazem isso há 30 anos) as instalações das principais entidades cooperativistas alemãs não conseguem absorver a cultura de eficiência e seriedade que lá fundamentam o cooperativismo de crédito. Por aqui o cooperativismo depende fortemente dos subsídios governamentais (bancados pelo contribuinte) e tem baixíssima participação de mercado. Aqui em terras tupiniquins pode-se dizer que o cooperativismo de crédito vive de uma ciranda financeira propiciada pelas elevadas taxas de juros e subsídios, sem fomentar as economias regionais como preconiza a cartilha onde aparecem listados os seus princípios fundamentais. Esta condição está hoje ancorada nas elevadas taxas de juros do sistema financeiro, nas isenções fiscais e nas verbas subsidiadas de crédito rural. Mudando qualquer um desses fatores os sistemas cooperativistas sofrerão impacto relevante na sua geração de caixa e nas sobras.

Por outro lado, em tempos de divulgação e incentivo à gestão integrada de riscos, o Banco Central, com os seus competentes funcionários, deveria examinar com mais atenção a divisão política que esses sistemas cooperativistas fazem de sua estrutura de gestão de riscos. Os conhecidos conflitos de interesse que rondam os sistemas cooperativistas podem ser multiplicados e deixar um legado sinistro para os associados e mesmo para o contribuinte brasileiro. Uma divisão equivocada e política pode dificultar a identificação dos riscos nas sedes, cooperativas centrais e mesmo nas cooperativas singulares, turvando a visão de uma ou mais entidades do sistema. Some-se a isso dois fatos importantes: i) o baixo nível de capitalização do Fundo Garantidor das Cooperativas – FGCOOP, que mantém cerca de R$ 850 milhões para fazer frente a mil cooperativas de crédito, das quais mais de 20 (vinte) delas possuem depósitos em valor superior ao patrimônio do fundo garantidor, padrão bastante distinto do FGC, o fundo garantidor dos bancos; ii) a troca em 2014 da área de fiscalização das cooperativas pelo Banco Central, antes fiscalizada pelo mesmo órgão que acompanha os bancos, reduzindo o nível de exigência técnica e de eficiência sobre os sistemas cooperativistas, sobretudo das sedes.

Ponto alto deste artigo,  ofereço aqui uma nova sugestão. Dado o volume de recursos públicos injetados nos sistemas cooperativistas, o Banco Central deveria criar regra que permitisse a participação de representantes por ele indicados, oficialmente,  nos conselhos de administração e fiscais dos órgãos de sede, sem direito a voto, apenas como ouvintes. Isto aumentaria a compreensão do órgão regulador sobre os problemas que afligem os sistemas cooperativistas de crédito, notadamente no sentido de estimular um regramento que incentive a visão sistêmica e não a de interesses particulares.