Medindo a Liquidez nos Sistemas Cooperativistas de Crédito

Eu escrevi e publiquei aqui no blog um artigo sobre liquidez, destacando a falta de teorias sobre o tema, quando comparada a outras questões financeiras, como rentabilidade, risco de mercado e risco de crédito. O risco de liquidez é o mais fácil de ser entendido, mas difícil de ser precificado! As teorias mais famosas em financas admitem um mercado plenamente líquido em suas premissas, algo bem distante da realidade.  O fato é que, na maioria das vezes, há riscos antecedentes que ao se materializarem provocam o risco ou a crise de liquidez. Por exemplo, uma determinada cooperativa singular concentra as suas operações no setor sucroalcooleiro e padece com uma grande inadimplência concentrada em usinas, produtores rurais fornecedores de cana, empregados da usina e outros da mesma cadeia de produção. Ao não receber os empréstimos, fica sem fluxo de caixa para fazer frente aos compromissos. Dá a impressão que o problema foi de liquidez, mas antes tinha a questão  de crédito, que foi a determinante para a crise de liquidez.

Desta forma, fica claro, também, que no mundo real os riscos estão todos relacionados uns com os outros, daí o Banco Central, recentemente, editar norma para a Gestão Integrada de Riscos – GIR, assunto que ainda será tema de artigo específico neste blog. Aproveitando este ponto para uma brincadeira, nunca me esqueço quando, no último ano do curso de engenharia civil, perguntei ao professor de uma das principais disciplinas do curso: Professor, eu já sei construir pilares, vigas, lajes, agora quem vai me ensinar a juntar tudo isso para projetar uma casa? A resposta foi: só um bom estágio ou um bom emprego. (risos).

Voltemos à questão de mensurar a liquidez. Uma boa mensuração é o começo da boa gestão da liquidez, sem dúvida. Nos sistemas cooperativistas de crédito há muitas operações internas, entre o Banco Cooperativo e a Central, entre a Central e a Singular e entre o Banco Cooperativo e a Singular, que nem sempre aparecem detalhadas nos demonstrativos contábeis, fato este  que pode dificultar a mensuração daquilo  que pode ser considerado líquido ou disponível. Há aplicações da singular na Cooperativa Central que são correspondidas por aplicações da Central no Banco Cooperativo, como forma de reciprocidade e garantia a operações de crédito.   E é aí que mora o perigo! Mais à frente voltaremos a este ponto.

Uma métrica típica de instituições financeiras é a razão entre ativos líquidos e o total de depósitos. Quanto maior esta razão, mais líquida é a instituição financeira. E por que comparar com os depósitos? Porque os depósitos, regra geral, são a principal fonte de recursos/liquidez para a cooperativa e são voláteis, podem ser sacados e as instituições sacadas tem que ter capacidade, a qualquer tempo, de prover recursos para tal. Isto é sagrado! Senão, o Banco Central fecha/liquida a instituição.

Muito bem, se estivéssemos num banco convencional, nós poderíamos adotar como ativos líquidos as aplicações em títulos públicos federais (tvm/open/over) e em cdi´s over de bancos de primeira linha (por exemplo, grandes bancos com mais de R$ 10 bi de ativos) e exigir que a razão entre tais ativos e os depósitos fossem superiores a determinado piso. Que piso? Ora, poderíamos estudar a série histórica de saques/perdas de depósitos, anotando o pior ou um dos piores momentos. O pior valor ou um percentil de corte desta série poderia ser adotado como piso de liquidez. Em vez de olharmos o espelho retrovisor, poderíamos adotar uma visão prospectiva, analisando um ou mais cenários para obter o tal piso.

O que são ativos líquidos para as Cooperativas Singulares? Elas não aplicam diretamente no open ou no cdi como um banco convencional. O recurso passa pela chamada centralização financeira que, por razões políticas, circula pela Cooperativa Central e depois segue para o Banco Cooperativo do sistema a que pertencem. É no Banco Cooperativo onde se realizam de fato as aplicações em mercado segundo uma política já aprovada por todos, seja no open market (títulos públicos federais), em CDI e outros títulos privados via CETIP.  Ora, vejam que a liquidez de uma Cooperativa Singular, nesse ponto, tem mensuração mais complexa do que a de um banco comercial convencional.

Entretanto, poderíamos adotar uma proxy de liquidez, indicando que os ativos líquidos nas Cooperativas Singulares são as aplicações na tal centralização financeira, descontando daí aquelas aplicações dadas em garantia à Central e/ou ao Banco Cooperativo. Com isso, estamos apostando que grande parte desses recursos, na ponta final, ou seja, no Banco Cooperativo, serão transformados em aplicações em títulos públicos federais ou aplicações em cdi´s over de bancos de primeira linha. Faz-se necessário, entretanto, acompanhar diariamente as aplicações da Centralização Financeira pelo Banco Cooperativo (ou eventualmente pela Cooperativa Central) de maneira a garantir que sejam feitas em ativos líquidos, em conformidade com a política de liquidez aprovada pelas instancias superiores.

Então, note desde já o porquê da tal gestão integrada de riscos! Há vários centros de liquidez instalados num Sistema Cooperativista de Crédito organizado em nível nacional.  A Cooperativa Singular, a Cooperativa Central, o Banco Cooperativo ou mesmo uma subsidiaria que lida com fundos de investimento tem o condão de mudar a liquidez de uma cooperativa ou do sistema como um todo. Se uma Singular aplicar direto a sua sobra de caixa em algum outro instrumento fora da centralização financeira ela terá a sua liquidez alterada. Se uma Central deixa de enviar os recursos de suas singulares para o Banco Cooperativo ou mesmo negociar com a Subsidiária do Banco Cooperativo uma aplicação em títulos privados isso também altera a sua liquidez e por consequência de toda a sua jurisdição. É preciso um controle único de tudo isso para que o caos não se instale.

Uma outra questão importante são as garantias internas adotadas pelas entidades que compõem o sistema cooperativo. É comum uma Singular tomar recursos emprestados no seu Banco Cooperativo e dar em garantia algumas de suas aplicações na tal centralização financeira.  Ora, como a maior parte dos recursos da Singular foi aplicada na sua Cooperativa Central, há que se realizar uma triangulação de recursos para satisfazer a exigência do Banco Cooperativo. O problema é que essas triangulações costumam gerar  fragilidades jurídicas, dado que a lei ampara com muito mais substância as garantias diretas entre as Singulares e o próprio Banco Cooperativo. Como citamos em outros artigos aqui no blog,  há medidas que são colocadas muito mais para aumentar a influência política de dirigentes de centrais sobre as singulares do que propriamente para garantir o progresso das cooperativas em uma jurisdição.

É possível que essas garantias que a Cooperativa Central dá ao Banco Cooperativo, em nome das singulares, não apareçam registradas nos documentos contábeis formais. Ora, isso pode distorcer a mensuração da liquidez. Pode-se contar como líquidas determinadas aplicações que já foram dadas internamente em garantia. Se tais garantias continuarem sendo tratadas como ativos líquidos,  pode-se apurar uma liquidez inflada para a Singular e para a Central.

Há que se adotar visão abrangente dos riscos para garantir que as diferentes entidades cooperativistas intervenientes no processo de gestão de liquidez façam a sua parte corretamente. O aperfeiçoamento do processo de centralização financeira traria maior conforto para a gestão da liquidez, sobretudo se as aplicações fossem feitas diretamente pelas Cooperativas Singulares no seu Banco Cooperativo, já que haveria maior respaldo  jurídico para serem utilizadas como garantia aos empréstimos do Banco Cooperativo para a cooperativa singular. Importante registrar, também, que haveria menos intervenientes num processo crítico e especializado, ficando as aplicações das sobras de caixa das singulares (centralização financeira) padronizadas e automatizadas.

Geralmente,  as Cooperativas Centrais e as Confederações tem um viés político e os Bancos Cooperativos, viés técnico. Conforme já comentado em outros artigos do blog, a existência de múltiplas diretorias na sede dos sistemas cooperativistas (Confederação, Banco cooperativo e Subsidiárias do Banco) deixa a gestão dos negócios e em especial a gestão de riscos confusa e, em alguns casos, míope! Uma primeira boa solução seria reunir as citadas diretorias numa única, sob o comando de um único presidente executivo. Uma segunda solução seria  implantar uma gestão integrada de riscos para todo o sistema cooperativista, centralizada no Banco Cooperativo!

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