Uma sugestão para o Banco Central: implantar rotina de Clean Up no Crédito Rural

A expressão Clean Up, segundo o dicionário de Inglês Merriam-Webster, significa:

 Limpar e Organizar

No jargão bancário, fazer ou exigir um clean up nas operações de crédito de um determinado cliente/tomador de crédito, significa solicitar que ele amortize parte de suas dívidas e/ou reescalone os pagamentos no tempo.

Você deve estar acompanhando nos jornais ou na TV a questão do rotativo do cartão de crédito. Uma nova regra surgiu para impedir que este tipo de dívida vire uma bola de neve. Ou seja, não mais será possível que o portador do cartão de crédito fique pagando mensalmente apenas o valor mínimo exigido e o saldo devedor remanescente seja corrigido por taxas espantosas!

Ora, a história mostra que no crédito rural existe fenômeno semelhante, não com taxas espantosas como no rotativo de cartão de crédito, mas com tempos de rolagem espantosos e que podem acabar em grandes prejuízos que acabam no colo do Tesouro Nacional e, portanto, nas costas do contribuinte brasileiro.

Então, a nova norma para rotativo do cartão de crédito é, nada mais nada menos, do que um clean up nas dívidas do portador de cartão. Depois de rolada por 30 dias, ela será dividida em parcelas para facilitar o pagamento e evitar a tal bola de neve!

Por que não fazer o mesmo no crédito rural? Por que não fazer isso em decorrência das auditorias do Banco Central, por amostragem?

Entendeu?

Eu explico melhor. Suponha que a fiscalização do Bacen chegue numa agência bancária ou cooperativa de crédito e lá perceba uma grande quantidade de tomadores que operam continuamente por mais de cinco anos, safra após safra, ano após ano. Os auditores do Bacen, então, irão selecionar uma amostra desses tomadores de crédito rural para clean up.

Selecionada a amostra de tomadores, a Instituição Financeira (IF) enviará uma carta aos tomadores constantes da amostra informando que eles estão escalados para fazer um clean up em suas dívidas, por medida regulamentar e para a segurança do sistema financeiro.

Tais tomadores receberão um plano individual de amortização da dívida de acordo com a sua condição econômico-financeira e por um período, definido pelo Banco e pela Instituição Financeira, nenhum crédito novo será liberado ao tomador. Dependendo do tomador e de sua condição financeira, este período de carência poderá variar de seis meses a cinco anos. Claro que, em situações extremas,  o tomador jamais terá um crédito novo.

O resultado deste clean up (pagamentos de juros, amortizações ao longo do período de clean up) será monitorado pela instituição financeira e pela própria auditoria do Banco Central. De acordo com o desempenho parcial do tomador, a auditoria do Bacen poderá liberar o tomador da condição de clean up e ele poderá a voltar a tomar crédito normalmente.

Três resultados são esperados deste processo:

Caso 1 : Tomador com Capacidade Normal de Pagamento e Produtivo

Entre seis meses e cinco anos, o tomador será retirado da condição de observação e poderá receber novos créditos.

Caso 2: Tomador sem Capacidade de Pagamento no curto prazo, mas produtivo e recuperável

Um novo plano de amortização das dívidas será estabelecido para esse tomador, que ficará sem novos créditos por um certo período (estipulado pelo Bacen em comum acordo com a IF), de forma a ajustar o fluxo de pagamentos à sua real capacidade financeira.

Caso 3: Tomador sem Futuro

Será estabelecida um novo cronograma de pagamentos, a interrupção dos novos créditos e/ou o ajuizamento imediato das dívidas para evitar a tal bola de neve.

Note que além de resolver especificamente a situação dos tomadores da amostra, tanto a IF quanto o Bacen terão uma boa estatística da carteira da agência, no que tange à expectativa de recebimento das mesmas.

 

2 Responses to “Uma sugestão para o Banco Central: implantar rotina de Clean Up no Crédito Rural”

  1. ROBSON VIEIRA SANTOS disse:

    Se forçar o clean up vai quebrar todos eles. Não sei o nível de inadimplência no setor, mas certamente as operações devem rolar anos e anos sem qualquer amortização. Forçar o clean um vai abrir um buraco estrondoso e com consequências muito provavelmente catastróficas.

    • muriloc disse:

      É isso aí Robson! Mas é melhor pararmos de nos iludir e levar a sério o crédito rural. Se fizermos as contas, o dinheiro injetado na agropecuária, via subsídio creditício, pode não estar trazendo mais os benefícios que já trouxe um dia, mas apenas transferindo riqueza dos mais pobres para os mais ricos sem qualquer contrapartida econômica. É um modelo anacrônico que permite muitos desvios de recursos da finalidade prevista. E o Brasil precisando de recursos para construir hospitais, casas próprias, escolas, saneamento urbano…..

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