Cooperativismo de Crédito: à espera de mudanças para um grande ciclo de crescimento!

Se você acompanha os meus artigos deve perceber que sou crítico com relação ao fato de os sistemas cooperativistas de crédito, possuidores de bancos cooperativos, terem uma participação modesta nos negócios de crédito do Sistema Financeiro Nacional e muito concentrada em grandes produtores rurais do sul-sudeste do país. Os enormes subsídios governamentais não tem sido suficientes para direcionar o cooperativismo para uma verdadeira atividade de fomento econômico,  ficando restrito aos interesses de um pequeno grupo de produtores rurais ricos e rentistas. Uma boa parte do dinheiro que circula nos sistemas cooperativistas fica numa ciranda financeira que consiste basicamente em tomar recursos baratos do governo e voltar a emprestá-los a taxas maiores para o mesmo governo central, com a diferença sendo paga, evidentemente, pelo contribuinte brasileiro, que pouco participa do cooperativismo de crédito.

O ponto central é que se perdem muitas oportunidades com esse mau direcionamento dos recursos governamentais, num país com tantos problemas sociais, econômicos e  fiscais.  Há que se pensar criativamente a respeito de uma nova forma de se exigir contrapartidas à concessão de subsídios aos sistemas cooperativas de crédito, induzindo-os a uma maior participação no crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN), notadamente no financiamento à atividade de micro e pequenas empresas, algo consagrado no cooperativismo mundo afora.

O Cooperativismo perde muito tempo, energia e recursos financeiros com uma grande quantidade de entidades na sua estrutura organizacional que pouco contribuem para o seu crescimento. Ao contrário, cria-se internamente uma espécie de torre de babel,  que dificulta os negócios, o cumprimento de metas e até mesmo a gestão dos riscos. Exemplo disso é o número exagerado de cooperativas centrais e cargos de diretorias que, muito além do custo que representam, acabam por criar dificuldades para as mudanças de que os sistemas precisam. São estruturas arcaicas, moldadas ao gosto de dirigentes que buscam eternizar-se no poder, tal e qual aconteceu com os cartórios e os muitos sindicatos de trabalhadores  no país.

A despeito da qualidade de seus funcionários, o Bacen parece enxergar de longe os problemas do cooperativismo de crédito. Falta energia para impor ao cooperativismo (pelo menos enquanto depender de tantos recursos públicos!) um modelo organizacional mais racional, induzindo-os à simplificação das estruturas tanto na sua Sede quanto nas entidades de segundo grau. Tanto é assim que, embora emprestem muito pouco (a carteira de crédito das cooperativas representa cerca de 3% da carteira total do SFN), acabam por gerar concentrações indesejáveis de risco de crédito em cooperativas que assistem a um único  setor econômico, notadamente naquelas que controlam o Banco Cooperativo, evidenciando um flagrante conflito de interesses.

Desta forma, a norma atual do Banco Central que permite o livre repasse de crédito rural dos bancos cooperativos às cooperativas não colabora com a diversificação do risco de crédito em nível setorial. Há que se estabelecer um limite máximo para o repasse a uma mesma cooperativa, em função do patrimônio líquido do banco cooperativo. Caso contrário, uma eventual crise num determinado setor econômico pode arrastar consigo uma ou mais cooperativas de crédito, penalizando os associados de todo o sistema cooperativista ou mesmo encarecendo a manutenção de seu Fundo Garantidor de Crédito – Fgcoop.

Há que se registrar também que as contribuições para o Fgcoop precisam ser balizadas pelo risco de cada cooperativa e não através de rateio linear. Em 2014, o Banco Central permitiu que os dois maiores sistemas cooperativistas resgatassem os recursos de seus fundos garantidores privados para iniciar com apenas R$ 200 milhões o Fgcoop, o Fundo Garantidor coletivo do Sistema Nacional Cooperativista de Crédito, uma medida sem o amparo de uma sólida fundamentação técnica.

Atualmente o Fgcoop conta com cerca de R$ 800 milhões o que representa apenas 0,6% dos valores garantidos, quando o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) dos bancos, tem percentual superior a 3%.  Cite-se, ainda, que há mais de vinte grandes cooperativas associadas ao Fgcoop que possuem depósitos superiores a esse valor, o que aumenta a percepção de risco, quando se compara com a situação do FGC, onde apenas os cinco maiores bancos tem volumes garantidos superiores ao seu patrimônio.

Por fim, lembro que a decisão do STJ, de 2011, que não reconheceu a solidariedade natural entre as entidades cooperativistas, coloca em posição desvantajosa as cooperativas de menor porte, privilegiando mais uma vez as grandes cooperativas de produtores rurais ricos,  controladoras do banco cooperativo de seu sistema. As grandes cooperativas tem os seus muitos recursos financeiros aplicados no banco cooperativo blindados contra eventuais demandas judiciais das pequenas cooperativas, as primas pobres, mas podem, elas mesmas, abandonar o barco a qualquer instante, para montar outro sistema e quiçá um outro banco cooperativo.

 

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