A tragédia de Brumadinho sob o olhar da Gestão de Riscos

Risco é a chance de alguma coisa ruim acontecer. De uns tempos para cá, talvez nos últimos vinte anos, tem crescido o uso de metodologias de mapeamento (identificação), mensuração e gestão dos riscos. Quando se inicia a avaliação de riscos de uma empresa ou de um projeto o primeiro passo é o de mapear os riscos existentes. A maior parte dos riscos se enquadra na categoria de riscos operacionais, estando associados a falhas de pessoas, de sistemas mecânicos ou eletrônicos. Há também o risco de fraudes e o risco de eventos externos, enquadrados nesta categoria, como terremotos, maremotos, tufões, furacões, deslizamentos de terra, ou seja, eventos naturais ou climáticos.

A identificação é o passo mais penoso da gestão de riscos, demandando uma varredura nos processos e negócios da empresa/projeto em busca dos fatores de risco. Além disso, é preciso quantificar o risco, avaliando a chance (probabilidades) dos eventos acontecerem bem como a severidade/impacto dessa ocorrência. Portanto, o risco resultante é fruto da combinação das probabilidades com as severidades dos eventos. Há eventos de risco frequentes mas de baixa severidade. Exemplo: falhas humanas no registro dos pedidos de clientes num serviço de delivery de comida por telefone. As falhas são frequentes, mas os impactos não são tão severos. Numa grande rede de varejo pode acontecer até 20 falhas por dia, mas essas falhas levarão a empresa a perder no máximo 20 (vinte) dos seus milhares de clientes. E, claro, que ações corretivas pós venda inicial podem minimizar as deserções de clientes. Agora, a mesma empresa de delivery deve ter um cuidado maior com o processo de fabricação da comida. Um erro operacional na adição de um tempero, de um insumo no alimento que está sendo produzido, pode provocar intoxicações e até morte. Portanto, há que se separar os eventos pelo nível de risco final que podem produzir e os tratamentos (ou gestão) costumam ser diferenciados, como veremos mais adiante.

Para os eventos mais prováveis e de menor impacto, adotam-se controles para tentar minimizar a sua ocorrência. Mudam-se alguns poucos processos, adicionam-se pontos de dupla checagem/conferência para minimizar sua ocorrência. Para eventos pouco prováveis e de grande impacto (severidade), costuma-se contratar seguros. Para eventos muito prováveis e severos, ou se desiste do negócio/projeto, ou investe-se muito dinheiro no processo de maneira a reduzir a frequência e/ou a severidade e, ainda, contrata-se o seguro após a redução da frequência de ocorrência. Note, entretanto, que eventos muito frequentes e altamente impactantes tendem a inviabilizar o negócio!

Como classificar o evento de Brumadinho?

Ora, não se pode dizer que o rompimento da barragem foi um evento externo ao negócio da empresa proprietária. A barragem era parte do negócio de mineração. Certamente, que dentro da categoria de riscos operacionais deveriam ter criado um evento rompimento de barragem como sendo um evento pouco provável e muito severo. Por que consideramos pouco provável ? Ora, pelo motivo descrito acima, ou seja, não seria razoável admitir uma mineração que trouxesse em seu bojo um risco de elevada frequência e de elevado impacto. Tal setor, num país desenvolvido, seria inaceitável. Por isso, o evento rompimento de barragem deve ser estressado e recursos investidos para minimizar a sua ocorrência. Após minimizada a frequência, faz-se necessário adotar ações para reduzir o impacto/severidade no caso de ocorrência.

Não há impacto maior do que a perda de vidas humanas! Portanto, uma medida salutar para reduzir o impacto seria o de se retirar as unidades administrativas e operacionais da direção da lama, no caso de rompimento. Ou seja, a severidade embora elevada para o meio ambiente, seria em muito emagrecida na sua possibilidade de ceifar vidas humanas. Dificilmente, os investimentos conseguiriam transformar o evento rompimento da barragem em um evento pouco severo, já que seria impossível eliminar a chance de, no caso de rompimento, a lama atingir alguns poucos operários. Mas daí a se deixar unidades administrativas na reta do rio de lama (no caso de rompimento) é o que se costuma designar como negligência! Resumidamente, a empresa mineradora, deveria envidar esforços para que o evento rompimento da barragem fosse considerado pouco frequente/pouco provável e muito severo, mas nunca catastrófico, como foi o caso de Brumadinho, cujo rompimento ceifou a vida de centenas de pessoas. Por óbvio que quando se fala em vidas humanas a meta deveria ser morte zero! Entretanto, depois da experiência de Mariana e Brumadinho este autor desconfia ser esta uma meta impossível, resultando na avaliação de que a atividade de mineração carrega consigo um considerável risco potencial de morte.

Retornando ao primeiro parágrafo desse artigo, o mapeamento dos riscos deveria ter identificado o rompimento da barragem como sendo um fator de elevado risco final. A empresa mineradora deveria ter investido muito mais recursos para minimizar a chance de rompimento, construindo de maneira diferente da técnica a montante utilizada na barragem em tela. Além disso, a mineradora deveria ter investido mais na sua planta, retirando as unidades administrativas do caminho eventual da lama de rejeitos e isso reduziria a severidade do fator de risco rompimento da barragem. E a tudo isso que descrevemos,seja para reduzir a frequência do evento ou para diminuir a severidade, compõe aquilo que denominamos gestão de riscos que, no caso da mineradora Vale, falhou absurdamente.

Há que se aproveitar a tragédia e dela retirar as melhores lições, para se evitar novos casos da espécie. Em particular, acredito que as autoridades reguladoras deveriam exigir que os estudos de risco, os planos de emergência/contingência fossem assinados por toda a diretoria executiva da empresa mineradora, a exemplo do que ocorre com a Lei Sarbanes Oxley (SOX) nos Estados Unidos, que exige que a alta administração reconheça como certos e fidedignos os documentos contábeis da empresa.

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