Na Gestão de Riscos de Instituições Financeiras, o bom é nem deixar a vaca olhar para o brejo!

vaca-no-brejo

Eu era menino pequeno em Miraí, MG, e um dia minha mãe me deu um relógio mondaine, uma das melhores marcas para a época! Foi então que ela disse:

  • Menino, vê se você não vai destruir esse relógio como fez com os seus brinquedos não, viu?

Eu, mais do que depressa, botei o relógio no braço e saí pela cidade desfilando diante dos amigos. Eis que voltando de uma partida de futebol, avistei a minha mãe e ela me perguntou:

  • Cadê o seu relógio, meu filho?

Eu disse:

  • Esqueci numa moita de capim, perto do campo onde estava jogando bola!

Ela retrucou:

  • Xiiii…a vaca já foi para o brejo!

A partir daí eu descobri que esta expressão “a vaca foi para o brejo” tratava-se de algo ruim, no caso em tela o sumiço do relógio, que nunca mais foi visto. Pelo menos por mim! Entretanto, o povo do interior utilizava a expressão de forma generalizada para traduzir uma situação de perda iminente!

Passado algum tempo, eu já estava, talvez, com uns 30 anos, fui descansar num certo julho numa fazenda aqui perto de Brasília. Tinha e tenho um grande amigo, vamos chamá-lo de Zé, que era capataz desta fazenda, um verdadeiro faz-tudo que cuidava do gado, do leite, das cercas, enfim, trabalhava com a euquipe!

Estando lá uma semana me deparei exatamente com uma vaca que entrou dentro de um brejo (uma região inundada por água, o capim quase todo coberto), uma vaquinha tranquila, mas paralisada no meio deste campo. Eu chamei o Zé e sugeri que retirássemos ela de lá. O Zé disse:

  • Murilo, esta aí já era! Não sai mais daí. Nós não aguentaremos removê-la daí, e o trator jerico está quebrado!

No que retruquei:

  • Zé, nós tocamos ela dali!

e ele disse:

  • Dali, ela só sai morta!

Passadas algumas horas, já na casa sede, vi uma outra vaca deitar-se quase em frente à porta principal com ares de tristeza e desanimo! Era mais um caso de morte iminente segundo o meu amigo que disse:

  • Murilo, essa aí não aguentou nem ir para o brejo!
  • Ah Zé! Esta aqui não vai morrer não! Vamos pegar um pau e atravessar por debaixo da barriga dela, aí  cada um pega de um lado e fazemos uma alavanca para levantá-la!

E assim fizemos  umas três vezes, mas o destino foi mais forte! De noite, enquanto dormíamos, a vaca deitou de novo e morreu na madrugada!

Dias depois, tomando uma pinguinha no terreiro,  ele me explicou que o modelo de criação era assim, algumas vacas iriam morrer mas isso fazia parte do show! O patrão é que implantou este modelo de pecuária onde não poderia haver gastos extras com ração ou mão-de-obra. No final, mesmo assim, o lucro era garantido!

De qualquer forma, aos 30 anos, eu entendi perfeitamente o porquê do ditado popular a vaca foi para o brejo! Parece se tratar de uma espécie de suicídio ou eutanásia para abreviar o sofrimento animal, vai saber!

Dias se passaram, já fora da fazenda, eu perguntei a outro amigo, veterinário, o porquê de tudo aquilo que acontecia na fazenda do Zé e ele me disse: um modelo econômico. Ruim, mas um modelo muito praticado no interior de alguns estados brasileiros.  A premissa é não gastar com  ração, vacinas, sais minerais, visando um lucro máximo com esforço mínimo!  Segundo o mesmo veterinário, um erro crasso, porque se houvesse investimentos  as vacas nem sequer olhariam para o brejo, produziriam mais leite ou mais carne! Aqui utilizei a palavra vaca, mas normalmente se tem bois e vacas na atividade pecuária.

Voltando ao nosso campo de estudo, o da Gestão de Riscos das Instituições Financeiras, o bom é investir em prevenção, controles, para que a vaca não flerte com o brejo!  (risos). Deixar todas as agencias (análogas às vacas desta história) soltas, sem controle, sem sistemas que detectem procedimentos estranhos (outliers), prorrogação contumaz de operações, inadimplência crescente, posição de liquidez abaixo de um piso estipulado em política, insuficiência crônica de capital, alavancagem de crédito muito acima da média, pode ser equivalente a cultivar brejos para garantir o suicídio coletivo das vaquinhas!

 

 

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