A culpa é do Comitê!

bacaninha_velhinho

Havia uma denúncia circulando pela praça e que chegou a Brasília. O assunto tinha sido objeto até de uma nota, dessas de fofoca, de coluna social, no jornal O Popular de Goiânia. Numa certa cidadezinha próxima à capital goiana, alguém estava atrapalhando a vida dos produtores rurais, deixando-os insatisfeitos com relação ao atendimento pela agencia bancária. O interessante é que a denúncia, quando circulava, sempre fazia uma ressalva que tudo acontecia à revelia do gerente principal, que figurava como pessoa muito educada e cortês com os clientes, sobretudo com os produtores.

Fui enviado à agência para apurar as denúncias. Chegando lá, comecei a conversar com os funcionários da agência e com algumas lideranças municipais em busca de informações mais detalhadas. Como o prédio da agência estava em reforma, todos os funcionários, inclusive eu, auditor, ficávamos muito mal acomodados. Mas foi exatamente em função disso que ocupei posição privilegiada! Acabei ficando atrás de uma parede improvisada com tapume onde do outro lado ficava a mesa do gerente principal e  assim passei a ouvir toda a sua conversa com os clientes,  a maior parte composta por produtores rurais em busca de operações de custeio agrícola ou pecuário.

Logo nas primeiras horas ouvindo a conversa do gerente (digamos que se chamava Márcio, um nome fictício) eu notei que ele sempre dizia que gostaria muito de atender os produtores nos seus pleitos, mas o comitê votava contra! Era comitê pra cá, comitê pra lá e os ruralistas pouco falavam, mas ficavam com aquele olhar estupefato, ouvindo o Márcio falar tanto do comitê!

Para quem não é do ramo bancário, comitê é simplesmente o nome do conjunto de funcionários da agência que participam da decisão do crédito! No caso, a agência do interior do Goiás tinha três gerentes de conta e um gerente principal, o Márcio. De maneira que sentavam-se sempre as 4 pessoas para decidir sobre os valores a serem emprestados ou mesmo se seriam ou não emprestados.

Eis que fui no sindicato dos produtores rurais para uma conversa com o presidente da entidade! Um produtor muito rico mas muito simples! Era mesmo impressionante como ele falava um português errado, como era simplório para algumas questões (as da organização bancária, por exemplo) mas como exercia liderança sobre os seus pares e como tinha tido um estrondoso sucesso na sua área profissional! Coisas do Goiás, esse estado maravilhoso, de pessoas simples (e ricas!) e francas!

Na conversa, que ocorreu lá pelo quinto dia de trabalho na cidade, já entendi tudo. Aquele senhor, presidente do sindicato, acreditava que Comitê fosse o nome de uma pessoa, de um funcionário da agência que estava ali para atrapalhar os negócios! Não associava a palavra com o conjunto de funcionários liderados pelo próprio Márcio.

Muito pouco tempo depois da minha passagem pela agência, o Márcio, que já tinha lá os seus 62 anos, resolveu se aposentar. Era uma pessoa muito bacana, muito culta, super educada, mas que não tinha o menor jeito para gerenciar uma agência daquele porte! Tinha feito uma carreira longa como técnico, brilhante com certeza, mas não tinha habilidade gerencial.  Ele sofria muito diante dos clientes, morria de medo de dizer um NÃO e deixava a coisa sempre no ar, contribuindo para a desinformação tanto do presidente do sindicato quanto dos demais produtores.

 

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